9 de janeiro de 2012

As Pragas Cariocas


Não, fãzoca da Xuxa, não é desse praga que tô falando, são PRAGAS, leu o título da posgetam?
 
Sinto que morar no Rio de Janeiro hoje é como morar no Antigo Egito bíblico, mais exatamente no momento em que Moisés, para pressionar o faraó a libertar seu povo, invoca sete pragas terríveis contra os egípcios. Apesar de ser tradicional o hábito de nossos políticos de se comportarem como verdadeiros faraós, aqui, diferente da passagem bíblica, temos duas coisas que nos são bem peculiares: primeiramente, não temos um Moisés, um “herói”. Levando em consideração que, nos dias de hoje, há uma certa dificuldade em encontrar alguém chamado Moisés, ainda pesa o fato que nós estamos carentes até de salvadores da pátria. Não que a saída para nossos problemas tenha que vir de um “Messias”, mas é inegável que falta uma liderança confiável para nos abrir os olhos (já que seguir uma liderança, sempre é muito perigoso e inadequado, por estarmos transferindo nossa responsabilidade para uma figura). Segundo, como estamos no Brasil, infelizmente não tivemos tempo hábil e recursos suficientes para sete pragas, conseguimos três baratinhas e olhe lá. E quais seriam essas “pragas bíblicas cariocas”? Simples: o crack, o celular com alto-falante sem fone de ouvido e a dengue.
Mas porque justamente essas três? Será que uma educação ruim, o desastre da segurança pública e do sistema de saúde ou a corrupção não poderiam fazer parte disso? Sim, de certa forma elas fazem parte, até porque nossas três pragas, em suma, são desdobramento de todas essas pragas crônicas maiores. Além disso, as três pragas são endêmicas e visíveis. Se você estiver no Rio, com certeza você já viu um viciado em crack vagando sem rumo por aí, um “nem” (ou até mesmo um “playboy”, já que epidemias não tem preconceito econômico, de sexo, religião e afins) com seu celular em alto e bom som tocando os mais novos sucessos de uma “Jabá FM” da vida ou se você nunca ao menos conheceu um carioca que já pegou dengue – isso se você mesmo, enquanto morador da Cidade Maravilhosa, já não pegou.
As três pragas representam o fracasso e o descaso tanto do Estado quanto da própria sociedade em pensar no bem comum. Penso assim:
      
- Tanto o crack quanto a dengue são problemas gravíssimos de saúde pública. Além de terem em comum a ineficácia por parte do Estado em prevenir o problema, há também a ineficácia do Estado em tratar de ambos, que se revelam ainda mais perigosos cada dia que passa. Ou seja, não há uma política de sucesso de prevenção e tratamento de infectados pela dengue ou viciados em crack.

- A dengue e o maldito do celular sem fone mostram, por sua vez, a nossa faceta de descaso e desrespeito com o próximo e com a vida em sociedade. Muitos dos que pegam dengue ano após ano não possuem focos do mosquito transmissor da doença em suas casas, mas pegam dengue porque o(s) vizinho(s) não previne(m) o surgimento de focos da doença em suas residências. Com o celular sem fone é parecido, já que quem toma a atitude de escutar “essa-maldição-móvel-made-in-Hong-Kong” pelo alto-falante, principalmente em transportes públicos (mas comum em outros inúmeros espaços públicos), mostra que não se importa com o próximo, ao curtir suas músicas prediletas em lugares tão (e de maneira) inapropriados. Isso só mostra o quanto nossa educação (não a da escola, nesse caso específico, mas a que vem de berço) anda em baixa. Se as “famílias de bem” não conseguem educar seus filhos a respeitar o próximo, mesmo nas coisas mais simples no que tange a convivência em sociedade, é sinal que essas “famílias de bem” podem até ser “trabalhadoras”, “crentes em Cristo” e tudo o mais que elas insistem em falar em alto e bom som, mas não tem o mínimo de respeito ao que é público, muito menos com a convivência com outras pessoas. Enjaular esses sujeitos é uma hipótese a ser estudada, mas já me avisaram que vai faltar jaula para enjaular tanta gente mal-educada.

- Finalmente, tanto o crack quanto o celular sem fone mostram que as piores coisas do mundo podem ser amplamente democráticas, já que o vício em crack e a falta de educação não distinguem as pessoas por conta de suas diferenças, muito pelo contrário, só as une em circunstâncias pouco nobres. Mais do que isso, ambos atendem eficazmente a lógica capitalista, sempre sedenta pelo lucro rápido, de uma forma espetacular. O preço de uma pedra de crack é irrisório, seu vício é rápido e avassalador. Um celular com alto-falante é comprado em vários casos parcelado em 12 vezes sem juros, seu som incomoda a todos e ainda é multiuso. São, com certeza, fórmulas perfeitas para quem ganha dinheiro vendendo essas coisas.

Claro que atribuir todas as mazelas de nossa cidade a essas três pragas é reducionista. Mas penso que elas representam algumas das coisas que de pior o Rio de Janeiro possui. Eliminar essas pragas – e as que dão força para que elas existam – consiste muito mais do que exigir uma postura decente dos nossos governantes. Ela exige algo muito mais desafiador, que é a nossa própria mudança de postura. Sem essa mudança, pragas como essas surgirão sempre e problemas já crônicos, não só cariocas como brasileiros, se perpetuarão.

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