Não, fãzoca da Xuxa, não é desse praga que tô falando, são PRAGAS, leu o título da posgetam?
Sinto que morar no Rio de Janeiro hoje é como morar no
Antigo Egito bíblico, mais exatamente no momento em que Moisés, para pressionar
o faraó a libertar seu povo, invoca sete pragas terríveis contra os egípcios.
Apesar de ser tradicional o hábito de nossos políticos de se comportarem como
verdadeiros faraós, aqui, diferente da passagem bíblica, temos duas coisas que
nos são bem peculiares: primeiramente, não temos um Moisés, um “herói”. Levando
em consideração que, nos dias de hoje, há uma certa dificuldade em encontrar
alguém chamado Moisés, ainda pesa o fato que nós estamos carentes até de
salvadores da pátria. Não que a saída para nossos problemas tenha que vir de um
“Messias”, mas é inegável que falta uma liderança confiável para nos abrir os
olhos (já que seguir uma liderança, sempre é muito perigoso e inadequado, por
estarmos transferindo nossa responsabilidade para uma figura). Segundo, como
estamos no Brasil, infelizmente não tivemos tempo hábil e recursos suficientes
para sete pragas, conseguimos três baratinhas e olhe lá. E quais seriam essas
“pragas bíblicas cariocas”? Simples: o crack, o celular com alto-falante sem
fone de ouvido e a dengue.
Mas porque justamente essas três? Será que uma educação
ruim, o desastre da segurança pública e do sistema de saúde ou a corrupção não
poderiam fazer parte disso? Sim, de certa forma elas fazem parte, até porque
nossas três pragas, em suma, são desdobramento de todas essas pragas crônicas
maiores. Além disso, as três pragas são endêmicas e visíveis. Se você estiver
no Rio, com certeza você já viu um viciado em crack vagando sem rumo por aí, um
“nem” (ou até mesmo um “playboy”, já que epidemias não tem preconceito
econômico, de sexo, religião e afins) com seu celular em alto e bom som tocando
os mais novos sucessos de uma “Jabá FM” da vida ou se você nunca ao menos
conheceu um carioca que já pegou dengue – isso se você mesmo, enquanto morador
da Cidade Maravilhosa, já não pegou.
As três pragas representam o fracasso e o descaso tanto do
Estado quanto da própria sociedade em pensar no bem comum. Penso assim:
- Tanto o crack quanto a dengue são problemas gravíssimos de
saúde pública. Além de terem em comum a ineficácia por parte do Estado em
prevenir o problema, há também a ineficácia do Estado em tratar de ambos, que
se revelam ainda mais perigosos cada dia que passa. Ou seja, não há uma
política de sucesso de prevenção e tratamento de infectados pela dengue ou
viciados em crack.
- A dengue e o maldito do celular sem fone mostram, por sua
vez, a nossa faceta de descaso e desrespeito com o próximo e com a vida em
sociedade. Muitos dos que pegam dengue ano após ano não possuem focos do
mosquito transmissor da doença em suas casas, mas pegam dengue porque o(s)
vizinho(s) não previne(m) o surgimento de focos da doença em suas residências.
Com o celular sem fone é parecido, já que quem toma a atitude de escutar
“essa-maldição-móvel-made-in-Hong-Kong” pelo alto-falante, principalmente em transportes
públicos (mas comum em outros inúmeros espaços públicos), mostra que não se
importa com o próximo, ao curtir suas músicas prediletas em lugares tão (e de
maneira) inapropriados. Isso só mostra o quanto nossa educação (não a da
escola, nesse caso específico, mas a que vem de berço) anda em baixa. Se as
“famílias de bem” não conseguem educar seus filhos a respeitar o próximo, mesmo
nas coisas mais simples no que tange a convivência em sociedade, é sinal que
essas “famílias de bem” podem até ser “trabalhadoras”, “crentes em Cristo” e
tudo o mais que elas insistem em falar em alto e bom som, mas não tem o mínimo
de respeito ao que é público, muito menos com a convivência com outras pessoas.
Enjaular esses sujeitos é uma hipótese a ser estudada, mas já me avisaram que
vai faltar jaula para enjaular tanta gente mal-educada.
- Finalmente, tanto o crack quanto o celular sem fone
mostram que as piores coisas do mundo podem ser amplamente democráticas, já que
o vício em crack e a falta de educação não distinguem as pessoas por conta de
suas diferenças, muito pelo contrário, só as une em circunstâncias pouco
nobres. Mais do que isso, ambos atendem eficazmente a lógica capitalista,
sempre sedenta pelo lucro rápido, de uma forma espetacular. O preço de uma pedra
de crack é irrisório, seu vício é rápido e avassalador. Um celular com
alto-falante é comprado em vários casos parcelado em 12 vezes sem juros, seu
som incomoda a todos e ainda é multiuso. São, com certeza, fórmulas perfeitas
para quem ganha dinheiro vendendo essas coisas.
Claro
que atribuir todas as mazelas de nossa cidade a essas três pragas é
reducionista. Mas penso que elas representam algumas das coisas que de pior o
Rio de Janeiro possui. Eliminar essas pragas – e as que dão força para que elas
existam – consiste muito mais do que exigir uma postura decente dos nossos
governantes. Ela exige algo muito mais desafiador, que é a nossa própria
mudança de postura. Sem essa mudança, pragas como essas surgirão sempre e
problemas já crônicos, não só cariocas como brasileiros, se perpetuarão.


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