27 de março de 2012

A Síndrome (Escolar) de Peter Pan


Nesses meus quatro anos trabalhando como professor já vi um bocado de coisas. Podia falar, mais uma vez, sobre o descaso que tratamos a nossa educação, dos salários baixos, ou mesmo sobre a tarefa quase quixotesca de trabalhar com educação no Brasil. Mas hoje não. Não que os problemas citados tenham perdido importância ou que tenham sido resolvidos, mas sempre é bom fugir dos assuntos habituais de vez em quando, só pra distrair.
Nesse tempo em que sou professor, acumulei uma certa experiência em dar aula para pessoas mais velhas que eu. E é sempre interessante dar aula pra pessoas adultas, pois elas quase sempre levam a educação a sério, te respeitam e se preciso expõem suas opiniões sem muito medo. Sim, prestem atenção, eu disse QUASE sempre. Quase sempre porque não raro o fato de voltar a estudar para algumas dessas pessoas mais velhas resulta numa espécie de síndrome de Peter Pan. Isto é, mesmo essas pessoas tendo idade para serem meus primos mais velhos, meus pais ou mesmo meus avós (!) regridem aos seus tempos de adolescente quando estão em ambiente escolar. Isso, na maioria das vezes, nem é ruim, muito pelo contrário, tem um efeito positivo, pois essas pessoas se sentem mais dispostas a estudar mais até mesmo do que a molecada. O problema é quando eles levam essa regressão tão a sério que se comportam de maneira tão insolente e mal educada quanto (ou mais) muitos adolescentes dos dias de hoje. É um tal de falar sem esperar a vez, de fazer cara feia quando se exige um esforço maior nos estudos, de fazer reclamações sem pé nem cabeça (um “pô, professor, o senhor falta muito!”, precedido de um “pô, professor, você não pode faltar uma “vezinha” pra gente sair mais cedo?”) ou mesmo de aprontar uma das grandes e tentar fugir da responsabilidade (“como que posso fazer isso, se eu sofro de pressão alta?”) que torna tudo risível. Ora, se já é risível essas coisas vindas dos mais novos, imagina de pessoas que, teoricamente, pela idade, tem um maior discernimento. É ainda mais ridículo.
De modo algum quero desencorajar as pessoas que estão fora da idade escolar a estudar. Insisto até hoje, por exemplo, para que minha mãe dê continuidade a seus estudos, e por inúmeras vezes vi alunos meus com idade mais avançada chegarem à faculdade. Mas o “rejuvenescimento exagerado” de algumas pessoas é tragicômico, e reflete, na verdade, uma inversão de valores bem típica dos dias de hoje, em que os mais jovens querem ser adultos (mas com medo de ter as responsabilidades de um adulto) e os mais velhos querem ser para sempre jovens. Nada mais normal para uma sociedade que parece que preza a inversão de valores...

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