13 de maio de 2014

Cabeça de Nego



A nossa libertação das correntes da opressão, e não importa qual seja ela, é uma luta diária. É matar leões por dia, são mudanças a passos de tartaruga, é um trabalho de formiguinha. E para quem carrega a marca recente (em termos históricos) da escravidão na cor da pele, por ser descendente de negros escravizados, sabe disso. Lá atrás, a luta de nossos ancestrais foi muito dura para que estivéssemos aqui, gozando de uma liberdade que eles não tiveram. Precisamos de uma lei para dizer que não mais éramos escravos, ou seja, não foi uma atitude benevolente dos escravocratas, que chiaram muito por conseguirmos essa tal de liberdade – e é por isso que desconfio piamente que existe sim uma cláusula que revogue a Lei Áurea, a ponto de deixar meus advogados de plantão.
Mas a Lei Áurea nos deixou abandonados a própria sorte. Não existiu uma política de inclusão da população negra na sociedade. E isso, infelizmente, se reflete até hoje. Um abismo social nos faz morrer mais jovens, nos faz ter menos anos de estudo, nos faz ganhar menos em nossos empregos.
Mas hoje não vim expor nossas angústias. Hoje não, por favor! Que a gente olhe pra trás e sinta orgulho do caminho que nossos avós, nossos pais e nós percorremos até aqui.
Nada nos foi dado de graça (nem as polêmicas cotas nas universidades, que deixo pra discutir em outra ocasião). Hoje, mesmo com muitas coisas a se conquistar, podemos nos orgulhar do que foi conquistado até aqui. Mas uma coisa que sinto que estamos ganhando a cada dia que passa – que talvez seja a força motriz para nossas futuras conquistas de uma sociedade brasileira, enfim, justa, independente da cor de pele, origem social, opção sexual, religião e outras barreiras que são mais usadas ultimamente para separar ao invés de unir -, é a nossa autoestima.
Sempre nos disseram, subliminarmente (ou não), que nós não nos encaixávamos nos padrões de beleza - a não ser a “mulata tipo exportação”, que tem o agravante de carregar uma bagagem sexista, ou seja, da mulher negra como simples objeto de desejo sexual -. O negro, além de marginalizado na sociedade, carregava – e ainda carrega, infelizmente – o fato de não estar dentro do que era, ou ainda é, tido como o “padrão de beleza” correto. E creio que estamos quebrando, aos poucos, esse paradigma. É muito gostoso ver cada vez mais as pessoas usando tranças, cabelos Black Power, usando adereços que dizem ao mundo que estamos nos livrando, mesmo que aos poucos, de um padrão de beleza que nos é imposto desde que nascemos. É mais uma das nossas lutas diárias, pois sempre escutamos que cabelo crespo é “cabelo ruim”. Como um tipo de cabelo pode ser “ruim”, se são infinitas as possibilidades de estilo, de cortes, de penteados?
Se ainda há dúvidas de que estamos cada vez mais confiantes de que podemos sim lutar por tantas injustiças (não só contra os negros, mas contra qualquer grupo marginalizado num país racista, machista e elitista) e que vamos buscar essa justiça, os penteados me dizem muito e de uma forma que é válido acreditar. Até porque eles me dizem que a transformação da parte da cabeça de cada pessoa que realmente conta (ou seja, a parte de dentro da cabeça) pode até ser vagarosa, mas está em curso. E é isso que realmente importa.

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