10 de agosto de 2014

Escutando Meu Velhinho

(Texto que achei essa semana perdido no meu computador há mais de três anos. Mais do que um ode à sabedoria das pessoas mais velhas, é uma singela homenagem ao meu avô e alguns dos momentos que mais carrego com carinho na minha memória. Espero que gostem)



Indo um pouco na contramão da minha geração e da molecada mais nova, sempre gostei de escutar o que os mais velhos tinham a dizer, mesmo que eles não raro repitam detalhes ou mesmo histórias inteiras. Mas sempre achei gostoso escuta-los. De vez em quando para um senhor ou uma senhora no ônibus, por exemplo, puxando papo comigo. Não sei exatamente o porquê, talvez eles veem que sou receptivo ou talvez eles estejam tão desesperados que alguém os escute que eles aceitam ser escutados por qualquer um, até por mim. Que seja, nunca vou saber. Nesses papos já conheci histórias de sucesso, fracasso, histórias engraçadas... Já cheguei a conversar com um senhor que – segundo ele – foi músico da Rádio Nacional. Legal mesmo.
Mas as melhores lembranças que tenho dessas conversas são das conversas com meu avô paterno. Quase sempre aconteciam no portão da casa em que ele mora. Ficávamos um bom tempo calados, olhando o movimento da rua, o vai e vem de pessoas e carros, até que ele sempre me perguntava como eu estava nos estudos. “Está tudo bem, vô”, e sempre esteve, nunca tive problemas mais sérios com a escola. A partir daí ele discursava com uma candura que só os avós tem sobre a importância de eu estudar, em deixar legados, em não ir “pra bagunça”, essas coisas. Pode não parecer muita coisa, mas penso que aprendi mais coisas nessas conversas com meu avô do que eu aprenderia em mil livros.
Eu penso que estamos carentes disso, de lições. Mais do que nunca pensamos que sabemos de tudo, queremos fazer tudo rápido e ao mesmo tempo e de forma inconsequente. O mundo nos transformou em monstros mimados e individualistas, essa é a realidade. Precisamos de bom senso, de pé no chão, e justamente é isso que os mais velhos falam da gente. Mesmo que eu cometa meus deslizes (todos cometem, uns mais, outros menos e outros só sabem deslizar como se a vida fosse um enorme tobogã), toda noite eu paro e me pergunto, “foi isso que meu avô me ensinou? Será que estou no caminho certo?”, mas não porque meu avô e as pessoas mais velhas sejam donas da razão. Mas acho que ainda cabe perpetuar os bons ensinamentos. Esses ensinamentos, ao contrário de roupas, músicas, ou cortes de cabelo, nunca saem de moda, e tirá-los de vez em quando pra passear nunca é demais.

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