27 de abril de 2012

Dar Aula


 Penso que essa é uma das raras vezes que não preciso de muito tempo para reparar em alguma coisa, e olha que sou muito ruim em reparar alguns detalhes, ainda mais detalhes que envolvam outras pessoas. Minha primeira namorada, por exemplo, tinha pênis, e só reparei depois de três meses de namoro. Mas isso é coisa do passado (um passado dolorido por sinal).
Mas onde diabos quero chegar? Simples, meus caros, no mais simples papo de professor. Eu comecei a dar aulas em uma escola municipal aqui no Rio de Janeiro há um pouco menos que um mês. Estou dando aulas para turmas de 6° e 7° anos, com a idade dos alunos variando entre 11 a 13, talvez 14 anos. Crianças. Melhor (ou pior), pré-adolescentes e pequenos adolescentes. E sempre escutei dos meus amigos que dão aula nas escolas municipais que é quase uma guerra diária tentar dar aula. E é, não minto. O melhor da minha “Pedagogia Maquiavélica” (pedagogia que tem como base o clássico “O Príncipe”, de Maquiavel, um dos meus livros prediletos, por sinal) eu venho gastando com essa molecada. Tem horas que pergunto para eles onde posso tirar a pilha deles para eu ter um pouco de sossego, de tão inquietos que eles são. Ser professor de turmas nessa faixa etária exige, acima de tudo, paciência e preparo físico.
Porém, se vocês me perguntarem se estou gostando da experiência, responderei que sim, pois, primeiramente, é uma experiência inédita pra mim dar aula para essa faixa etária, eu tenho mais ou menos cinco anos de magistério e só havia trabalhado até então com alunos acima de 16 anos. Então tenho achado um tanto proveitoso, pelo menos até agora. Mas o mais interessante é que, ao mesmo tempo em que não raro me corta o coração por ver que muitas dessas crianças não recebem uma educação muito boa dos seus pais, correndo o sério risco de perpetuar hábitos e atitudes ruins que seus pais lhes passam, por outro lado eu acho comovente a dedicação de muitos deles nos estudos, mesmo que ao mesmo tempo, aprontem a ponto de deixar meus lindos “dreadlocks” em pé. Dedicação esta que atribuo principalmente à questão de eles serem carentes de atenção, principalmente no ambiente familiar, e a tarefa de preencher esse vazio sobra, na maioria absoluta das vezes, para nós, professores. Então boa parte deles se empenha nas atividades escolares para que o professor dê uma atenção a eles, mesmo que eles saibam que o professor vai falar que o trabalho está precisando de algumas correções, por exemplo.
A graça de ser professor é essa: o salário é baixo, a cada dia que passa a educação parece perder – injustamente, lógico – a sua importância tanto para o governo quanto para a sociedade em geral, que não dá o devido valor à educação e aos seus profissionais e outros tantos problemas que atravessamos na área educacional, mas, enquanto existir um aluno precisando de ajuda, seja ele criança ou adulto, existirá o sentido em ser professor. Durmo sempre com a consciência tranquila de, ao menos, tentar fazer a minha parte, que pode não parecer muito pra mim (nunca me pareceu na verdade, mas sou um megalomaníaco) ou pra outras tantas pessoas. Mas para esses alunos, cada palavra carregada de atenção e carinho que os professores lhes oferecem é muito. Por isso que, mesmo ficando até doente por conta da minha profissão, ainda amo, e muito, o magistério. Por isso que sempre dou razão a quem fala que dar aula, acima de tudo, é um ato de amor. Um amor que te trata como mulher de malandro quase diariamente, mas... É amor.

Um comentário:

Suuu disse...

OINNNNNNNN....

Que lindo!

Por isso que eu quero dar aula um dia.

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