10 de novembro de 2015

Naquela Hora, Naquela Aula... Outra Aula




Não lembro exatamente o porquê do assunto surgir ali, naquela hora. Se não me engano, foi a partir de uma pergunta de um dos alunos sobre colonização portuguesa, que respondi e a partir daí o assunto fluiu. E o assunto era um dos mais espinhosos: RACISMO. Não espinhoso por ser "polêmico", até porque como professor negro, de origem humilde e dando aula numa das comunidades mais conturbadas do Rio de Janeiro, eu não poderia nunca sair pela tangente diante de tal assunto. Mas talvez, na inocência que ainda carrego, acreditei por um instante que a cabecinha deles poderia dar asas a "lugares comuns" que insistem em empurrar goela abaixo ao nosso povo, para que ele continue onde está e como está.
Mas eu estava errado. Ainda bem.
Mais recompensador em sentir que eles prestavam atenção na minha fala (já que uma das regras de ouro que aprendi dando aula é que os alunos muitas vezes adoram escutar as nossas experiências de vida) foi ver que eles também tinham algo a dizer. Opiniões contundentes e histórias tão tristes (ou mais tristes) de ser vítima de preconceito e discriminação quanto as minhas. Isso de crianças de 12, 13 anos.
Infelizmente, tive que alertá-los que histórias chatas como essas tem grandes chances de se repetir ao longo da vida deles. Elas se repetiram comigo, que não moro em comunidade, sou funcionário público, não tenho antecedentes criminais... Mas mesmo assim morro de medo da Policia Militar e odeio ir a bancos por conta do racismo institucional, fora o racismo cotidiano que está nas entranhas da nossa sociedade.
Mas falei que eles são o futuro. Que eles são os donos de seus destinos. Que o combate ao racismo, ao machismo, a desigualdade social é problema meu, é problema deles, é problema de todo mundo. Mas que eles tem a cabeça mais fresca para continuar as mudanças que, vagarosamente, acontecem no Brasil nos últimos 15, 20 anos. Que eles não permitam que as suas vozes sejam caladas por quem tem medo de gente como a gente.
E eles sorriram.
E eu sorri mais ainda, com lágrima nos olhos.
E vi que mesmo na minha turma mais indisciplinada (e de meus alunos mais indisciplinados dessa turma, que foram os que mais participaram dessa breve discussão) podemos aprender muito. Mais do que isso, aprender a ter esperança e confiança que estamos fazendo um bom trabalho.   

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