Um dia,
quando nascer cabelo no meu peito ou quando o Brasil levar a educação a sério (o
que vier primeiro!), pretendo ser um pai de família. Mas me imagino um pai de
família meio que das antigas, daqueles que constrói uma família com uma patroa
gente boa que, sempre muito educada, sempre vai me deixar dar a palavra final em casa (“sim,
senhora!”), numa casa simples, mas aconchegante no Engenho de Dentro, com um
quintalzinho pra receber os amigos nos fins de semana pra jogar conversa fora e
para a molecada brincar, e assim eu viver e envelhecer tranquilo (e enfim morrer, pois é o que
nos é mais certo na vida), ciente que fui uma pessoa boa e que, embora
tenha errado algumas vezes, errou por excesso de tentativas, não pela falta
delas. Mas aí olho o quanto os imóveis no grande Meier estão caras, que criar
filho não é brincadeira e que alguns amigos não tem dado nem um “oi” pelo
Facebook (nessa ordem) e desanimo um pouco. Mas o sonho de "só" ser feliz é
o que ilumina meus caminhos. Aí volto a sonhar com isso tudo e volto a abrir um sorriso.
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2 de agosto de 2014
Um Sonho...
"E eu que sempre quis um lugar, gramado e limpo, assim verde como o mar/ Cercas brancas, uma seringueira com balança/ Disbicando pipa, cercado de criança..." (Racionais Mc's, "Vida Loka - Parte II")
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20 de outubro de 2013
O Baixo
Não é sobre um cara baixo, é sobre o baixo, instrumento. A piada é essa, podem rir.
Com o baixo em punho, eu não sou Flavio, e sim a versão afrodescendente do Sting, o Stineguinho. Enquanto o Sting - que é loiro, alto, fala
inglês - nutre simpatia pelos índios, eu – negro, olhos que hipnotizam, dreadlocks selvagens
ao vento, que mal fala o português - nutro amor eterno pelas índias. Pelas
índias, pelas negras, pelas brancas, pelas asiáticas, por todas mulheres no
mínimo engraçadinhas desse mundão. E meu pequeno quarto de repente se
transforma e, do nada, vira um estádio, onde uma multidão espera pelos meus
“grooves” e “iê-iê-iês” de meia tigela. E tudo tão bonito, tão gostoso, mas é um
sonho. Mas é meu sonho.
E graças ao meu baixo.
Enquanto o violão serve para assustar a solidão, que ainda
insiste em vir bater um papinho comigo de vez em quando, o baixo serve para dar
asas a minha imaginação. E, mesmo que o baixo seja grande o suficiente para
esconder eu e minha timidez atrás dele, eu, teimoso que sou, me meto a cantar
enquanto toco, feito o ... Sting. Para quem mal sabe seu próprio nome todo, até
que estou me dando bem nessa, cantando e tocando baixo. Mal, mas fazendo os
dois quando a coordenação motora me permite. Ninguém reclamou, mas deve ser
porque eu toco de fone no ouvido. Ninguém me escuta. Ainda bem.
Agora me deem licença, tem uma multidão imaginária no meu quarto a
espera do melhor baixista daqui de casa. Volto daqui a duas horas. Fui!
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