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19 de dezembro de 2015

Seria Um "Samba Metal"?




Fiquei confuso e curioso.
Aquele senhor com fone que sentou do meu lado devia estar escutando algo bem legal. Por pouco, não pedi a ele para compartilhar comigo o que ele escutava, porque o gestual dele era, pra mim, "bastante peculiar", para ficarmos numa definição que não pareça que eu estava julgando aquele senhor.
Ele estava lá na dele, escutando o seu som, sossegado ("sossegado" é maneira de falar, podemos falar que ele estava era amarradão no que escutava), mas o jeito dele em curtir a música era muito engraçado. Ele batucava em sua coxa direita com uma cadência de quem estava escutando samba, parecendo que tocava um pandeiro imaginário, mas batucava com uma força de que estava escutando hardcore ou uma corrente do metal. Aí era inevitável que eu com minha cabeça de vento começasse a me perguntar: Primeiro, afinal, o que este senhor está escutando? Segundo, será que ele é de uma dissidência da Velha Guarda da Portela, que seria mais punk? Ou ainda, será que eu estaria assistindo a gênese de um novo estilo musical, bem do meu lado e num ônibus?
Tantas perguntas que me passavam pela cabeça e elas ainda deram origem a uma leve preocupação: como será que eu "batuco" quando estou envolvido com as músicas do meu celular quando estou num ônibus, por exemplo? Acho que não encontrarei respostas para nenhuma dessas perguntas. Mas fico feliz em ver que a música, assim como biscoito Globo, pode ser o maior passatempo da sua viagem no transporte público. Mas usando fone, hein, pessoal!

10 de novembro de 2015

Naquela Hora, Naquela Aula... Outra Aula




Não lembro exatamente o porquê do assunto surgir ali, naquela hora. Se não me engano, foi a partir de uma pergunta de um dos alunos sobre colonização portuguesa, que respondi e a partir daí o assunto fluiu. E o assunto era um dos mais espinhosos: RACISMO. Não espinhoso por ser "polêmico", até porque como professor negro, de origem humilde e dando aula numa das comunidades mais conturbadas do Rio de Janeiro, eu não poderia nunca sair pela tangente diante de tal assunto. Mas talvez, na inocência que ainda carrego, acreditei por um instante que a cabecinha deles poderia dar asas a "lugares comuns" que insistem em empurrar goela abaixo ao nosso povo, para que ele continue onde está e como está.
Mas eu estava errado. Ainda bem.
Mais recompensador em sentir que eles prestavam atenção na minha fala (já que uma das regras de ouro que aprendi dando aula é que os alunos muitas vezes adoram escutar as nossas experiências de vida) foi ver que eles também tinham algo a dizer. Opiniões contundentes e histórias tão tristes (ou mais tristes) de ser vítima de preconceito e discriminação quanto as minhas. Isso de crianças de 12, 13 anos.
Infelizmente, tive que alertá-los que histórias chatas como essas tem grandes chances de se repetir ao longo da vida deles. Elas se repetiram comigo, que não moro em comunidade, sou funcionário público, não tenho antecedentes criminais... Mas mesmo assim morro de medo da Policia Militar e odeio ir a bancos por conta do racismo institucional, fora o racismo cotidiano que está nas entranhas da nossa sociedade.
Mas falei que eles são o futuro. Que eles são os donos de seus destinos. Que o combate ao racismo, ao machismo, a desigualdade social é problema meu, é problema deles, é problema de todo mundo. Mas que eles tem a cabeça mais fresca para continuar as mudanças que, vagarosamente, acontecem no Brasil nos últimos 15, 20 anos. Que eles não permitam que as suas vozes sejam caladas por quem tem medo de gente como a gente.
E eles sorriram.
E eu sorri mais ainda, com lágrima nos olhos.
E vi que mesmo na minha turma mais indisciplinada (e de meus alunos mais indisciplinados dessa turma, que foram os que mais participaram dessa breve discussão) podemos aprender muito. Mais do que isso, aprender a ter esperança e confiança que estamos fazendo um bom trabalho.   

18 de novembro de 2014

Perguntas Inocentes, Respostas Vergonhosas




Olho em volta e vejo, no ônibus que estou, que só o lugar ao meu lado está vago. Vejo pessoas em pé, e elas não estão com cara de que logo descerão. Muito pelo contrário, a viagem será longa, para eles e para mim. E para mim vai se tornar uma viagem ainda mais longa, pois ela vai me revelar muita coisa.
A primeira coisa que faço é, discretamente, verificar se o cheiro das minhas axilas está desagradável (e não está), pois estranho um ônibus relativamente cheio e as pessoas sem vontade de sentar ao meu lado. Ainda faço a verificação mais uma ou duas vezes para ter certeza, e se tivesse alguém do meu lado, provavelmente perguntaria educadamente se o cheiro que vem de meu nobre sovaco incomoda. Na verdade, não o faria, mas tenho vontade de fazê-lo.
Tal qual um cientista minucioso, vendo que o primeiro teste não respondeu minha pergunta, parto para outras hipóteses, das mais básicas às mais improváveis: Estaria eu pelado? Sou esquecido o suficiente para correr esse risco. Não, estou vestido. Estaria eu ocupando o outro banco do meu lado no ônibus com minha mochila? Confesso que vez ou outra deixo escapar essa pequena falta de etiqueta. Mas olho para meu colo e a mochila está junto de mim. Não é isso. E se eu estiver armado? Idiotice, até hoje tenho medo de acender fogão e vou portar armas de fogo? Muito improvável. Será meu cabelo, minha pele, minha aparência, minha... Pronto. Parei de procurar.
Achei o que pode estar fazendo as outras pessoas evitarem sentar do meu lado.
E da resposta tenho raiva. E a raiva faz cair uma lágrima.
E desde novo aprendi que algumas indagações completamente inocentes podem nos revelar as coisas mais vergonhosas sobre nossa sociedade.

10 de abril de 2014

A Rotina e seus (Pequenos) Contratempos

A tal da rotina é capaz de suscitar sentimentos opostos: se, por um lado, bocejamos ao pensar no quanto nosso dia-a-dia pode ser repetitivo (para não dizer chato), por outro lado nos descabelamos se algo sair dessa rotina. E quando pensamos em alguma coisa que nos tira dela, pensamos logo em coisas grandes, tomados por um espírito megalomaníaco, pois pensamos em engarrafamentos e tumultos infernais, mas esquecemos das coisas que, por mais que sejam pequenas, atrapalham e até acabam com nosso dia.
Um dia desses, por exemplo, justamente um dia em que fiquei o dia todo fora de casa, um chiclete resolveu colar na sola do meu tênis. Por mais inofensivo que o chiclete fosse, parecia que eu estava calçando em um pé um tênis e no outro um sapato de salto alto. E, levando em consideração que não tenho nenhuma prática em andar com salto alto, ainda mais num pé só (habilidade que provavelmente só um travesti perneta possui), isso foi um incômodo monstruoso. Ao chegar em casa, ajoelhei, levantei as mãos para o céu e falei “Ó,Senhor, se isso foi um teste, da próxima vez me peça para construir uma arca, é menos sofrido”. Depois disso só me restou torcer para que meu fone de ouvido não falhasse no dia seguinte, pois ter um fone que funciona só de um lado é algo tão ruim que não se deseja nem ao pior inimigo.
Se pararmos para pensar, na verdade, ficar falando mal da rotina é tão... Rotineiro. Vamos falar mal da novela, do salário, do nosso time, mas reclamar da rotina cansa. É nessas horas que lembro do nome daquela peça da Elisa Lucinda, “Pare de falar mal da rotina”. Até porque, por mais enfadonha que nossa rotina seja, ela é nosso porto seguro. Pode parecer um pensamento covarde, e é, admito. Mas ser incomodado dessa forma por um pedacinho de chiclete é chato demais.

3 de maio de 2013

(Anti) Ode a uma (longuíssima) Viagem de Ônibus


Me peguei
pensando na vida
calculando as dívidas
E ainda não cheguei

Enumerei
um monte de carneirinhos
contei até o infinito
Mas ainda não cheguei

Imaginei
fantasias sexuais
até utopias sociais
Só que ainda não cheguei

Será que um dia vou chegar?
Só falta esse ônibus quebrar!
E nem vou tão longe assim...
Transporte público tenha dó de mim!

Rio, 03 e Maio de 2013.

25 de maio de 2012

Dinheirinho Suado!




Quando a gente trabalha pra ter um trocadinho a mais, sempre tem alguém doido para pegar da gente. E eles atacam com mais voracidade quando sabem que você é funcionário público. Ta bom, sei que o salário de professor não me faz o Eike Batista de Del Castilho, muito pelo contrário, eu preciso trabalhar muito – e me estressar mais ainda – para ter um pouquinho de conforto. Mas nem reclamo dos ladrões “pé-de-chinelo” nem nada, até porque eles devem ter mais dinheiro que eu, vejo isso pelos cordões de ouro que os danados ostentam por aí. Eu acho graça mesmo é dos bancos, planos de saúde e outros abutres que fazem comercial com gente feliz na televisão.
O banco vê que você tem um dinheiro a mais na conta e te ligam oferecendo financiamento de carro, financiamento de casa, seguro de vida, vendem a mãe, fazem absolutamente tudo para pegar seu trocadinho suado que vai sobrar – por um milagre quase – no fim do mês. Do que já me procuraram para me emprestar dinheiro, eu já perdi as contas. Mas já falei com financiadoras, com bancos, que quando eu precisar deles, eu os procuro. Mas mesmo assim eles insistem, como da vez em que um banco me ligou me oferecendo um seguro de vida:

-         alô, senhor Flavio?
-         Sim, sou eu. Quem fala?
-         Aqui é a Fulana, sou representante do Banco Tal, tudo bem? Estou ligando para o senhor para te oferecer um seguro de vida, o senhor está interessado?
-         Não, Fulana, agradeço, mas deixa para a próxim...
-         Mas senhor, estamos com parcelas bem baixas! R$25 por mês, que tal?
-         Não, eu agradeço, mas eu...
-         R$ 19, senhor, que tal? Fica melhor?
-         Fulana, eu já disse que...
-         R$ 12, senhor! Uma pechincha!
-         Fulana, muito obrigado, mas não quero, de verdade.
-         Tem certeza, senhor? Respeito a opção do senhor, mas o senhor há de concordar comigo que a gente nunca sabe quando pode acontecer alguma coisa indesejável, né? Então isso serve para deixar a família do senhor tranquila, sabe?
-         Minha filha, na moral, posso te falar uma coisa? Sou negão, certo? Fui criado nas ruas da Zona Norte do Rio de Janeiro, fui estudante de escola pública, já entrei em mais briga do que lutador de UFC e presenciei mais tiroteio que soldado de elite americano. Passei dos 25 e não morri de tiro. Negão que passa dos 25 no Brasil vive pelo menos 300 anos, vira lenda e tudo. Você tem certeza que quer me vender esse troço?
-         Desculpa, senhor. Senhor?
-         Sim?
-         E por R$ 9?

27 de fevereiro de 2012

Maldita Segunda

Todos nós odiamos, Garfield. Todos nós...

É sempre nublada. Se choveu durante o fim de semana todo, na segunda-feira abre aquele sol. Na segunda-feira passam filmes repetidos na televisão, a gente tem que aguentar as brincadeiras dos amigos sobre mais uma derrota do seu time, seu chefe está mal-humorado, se você tiver uma namorada provavelmente ela está chateada contigo como se você tivesse dormido com uma cueca de castidade feita de titânio, os ônibus estão cheios, os engarrafamentos, monstruosos, as filas dos bancos, enormes, ainda mais se for o dia 5 do mês, dia de ganhar e perder dinheiro em dois segundos contados no relógio. Segunda-feira, dia maldito. Menos para os vagabundos profissionais, porque todo dia é dia de vagabundear. A única vantagem da segunda-feira é que ela é o dia mais distante... Da próxima segunda-feira.
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