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19 de fevereiro de 2015

Prazer, Sr. Nariz Braga, Ao Seu Dispor



Uma das informações inúteis que mais me marcou nos últimos tempos é que nosso nariz e nossas orelhas crescem à medida em que envelhecemos. Para mim foi uma informação completamente estarrecedora, pois se os amigos não perceberam, minhas narinas são levemente avantajadas. Tanto que quando me contaram essa novidade, a minha expressão foi falar "Mais?" seguido de algum palavrão que demonstrasse meu espanto.
Costumo dizer que não escuto piadas inéditas sobre meu nariz há mais de 10 anos, ou seja, foi justamente durante minha infância e adolescência que escutei as piadas mais criativas (e mais cruéis) sobre o tamanho das minhas narinas. Elas iam desde a mais padrão, de que eu era um grande ladrão de oxigênio, até as mais nonsense, como me perguntar se eu tirava meleca com uma concha de feijão. Foram anos difíceis, pois piadas desse calibre nesse período da vida podem criar cicatrizes enormes. Confesso que chorei e tive vergonha do meu nariz, a ponto de (meu deus!) cogitar em operá-lo. É a repetição daquele papo de ter características que fogem das "normas socialmente aceitas" que conheço desde que me entendo por gente (preto, canhoto, tímido, magro, pobre, cabelo crespo... a lista é grande). Mas hoje sou um narigudo bem resolvido. Ainda bem.
Mas uma coisa é certa, meu caros: se minhas fontes estiverem realmente certas a respeito da evolução do tamanho do meu nariz, até meus 60 anos serei um nariz gigante. A conferir.

10 de agosto de 2014

Escutando Meu Velhinho

(Texto que achei essa semana perdido no meu computador há mais de três anos. Mais do que um ode à sabedoria das pessoas mais velhas, é uma singela homenagem ao meu avô e alguns dos momentos que mais carrego com carinho na minha memória. Espero que gostem)



Indo um pouco na contramão da minha geração e da molecada mais nova, sempre gostei de escutar o que os mais velhos tinham a dizer, mesmo que eles não raro repitam detalhes ou mesmo histórias inteiras. Mas sempre achei gostoso escuta-los. De vez em quando para um senhor ou uma senhora no ônibus, por exemplo, puxando papo comigo. Não sei exatamente o porquê, talvez eles veem que sou receptivo ou talvez eles estejam tão desesperados que alguém os escute que eles aceitam ser escutados por qualquer um, até por mim. Que seja, nunca vou saber. Nesses papos já conheci histórias de sucesso, fracasso, histórias engraçadas... Já cheguei a conversar com um senhor que – segundo ele – foi músico da Rádio Nacional. Legal mesmo.
Mas as melhores lembranças que tenho dessas conversas são das conversas com meu avô paterno. Quase sempre aconteciam no portão da casa em que ele mora. Ficávamos um bom tempo calados, olhando o movimento da rua, o vai e vem de pessoas e carros, até que ele sempre me perguntava como eu estava nos estudos. “Está tudo bem, vô”, e sempre esteve, nunca tive problemas mais sérios com a escola. A partir daí ele discursava com uma candura que só os avós tem sobre a importância de eu estudar, em deixar legados, em não ir “pra bagunça”, essas coisas. Pode não parecer muita coisa, mas penso que aprendi mais coisas nessas conversas com meu avô do que eu aprenderia em mil livros.
Eu penso que estamos carentes disso, de lições. Mais do que nunca pensamos que sabemos de tudo, queremos fazer tudo rápido e ao mesmo tempo e de forma inconsequente. O mundo nos transformou em monstros mimados e individualistas, essa é a realidade. Precisamos de bom senso, de pé no chão, e justamente é isso que os mais velhos falam da gente. Mesmo que eu cometa meus deslizes (todos cometem, uns mais, outros menos e outros só sabem deslizar como se a vida fosse um enorme tobogã), toda noite eu paro e me pergunto, “foi isso que meu avô me ensinou? Será que estou no caminho certo?”, mas não porque meu avô e as pessoas mais velhas sejam donas da razão. Mas acho que ainda cabe perpetuar os bons ensinamentos. Esses ensinamentos, ao contrário de roupas, músicas, ou cortes de cabelo, nunca saem de moda, e tirá-los de vez em quando pra passear nunca é demais.

18 de outubro de 2012

Eu e Emmanuelle (Luto)

Texto que fiz há uns três anos em homenagem a personagem que mexeu com as cabeças (as duas) de praticamente todos os adolescentes da minha geração.

Quando a conheci, eu nem tinha maldade o suficiente para imaginar posições sexuais. Escutava os meninos mais velhos, de 15, 16 anos, falando de posição X ou Y e eu fazia força para tentar imaginar como que era. E, na maioria das vezes, achava aquilo tudo impossível, a menos que se estivesse transando com uma ginasta romena. Mas isso foi até eu conhece-la. Até pouco tempo achava que ela era muda. Pior. Muda e bem mais velha. Não sei se minha mãe aceitaria que seu então filho inocente se relacionasse com uma mulher mais velha.
Não sei onde Emanuelle se metia durante a semana toda (ou se era metida a semana toda, vai saber), mas a madrugada de sábado era nossa. Ela chegava lá em casa por volta das duas e pouca e ficava até... Não sei até que horas ela ficava. Só sei que eu ficava exausto um pouco antes das três e ia dormir sem me despedir, e ela nem ligava. Entrava muda e saía calada lá de casa, porque o barulho podia acordar as outras pessoas da casa. Pois é, sexo perigoso e divertido.
E ela me mostrou até alguns lugares do mundo, mas ela me mostrou também seu belo par de peitos. Isso para um garoto de 14 anos é bem mais interessante que viajar para ver touradas, ir a África ou ao Oriente. Pensando bem, dependendo do par de peitos e do conjunto da obra, é bem mais interessante até hoje. Que seja. Lembro que tinha vezes que ela parecia outra pessoa. Tinha dias que ela tinha um jeitão tão anos 1970, em outros era um mulherão ao estilo anos 1990, mas sinceramente, pouco me importava. Só sei que tinha dias que as luzes ficavam meio baixas, o quarto parecia rodar... Tiveram algumas vezes que ela até me pediu para colocar um óculos 3D, para apimentar um pouco mais a noite, mas nunca consegui usar o tal óculos, por dois motivos: o primeiro era que eu achava – e ainda acho – ridículo usar óculos em lugares escuros (você não vai enxergar nada mesmo!). O outro motivo era que eu não tinha o maldito dos óculos. Mas era bom, mesmo que com ela eu sempre tive a impressão de estar sozinho. Mas dane-se. Ela era minha.
Mas não era só minha. Meus amigos também conheciam Emanuelle. Como? Não sei. E faziam todas aquelas coisas que eu fazia com ela. Estranho. Não me lembro de ter participado de nenhum gang-bang, ainda mais com conhecidos, alguns que até hoje são bem mais feios que eu. Não faziam o tipo de Emanuelle, tenho certeza. Só podia ser mentira, blefe de moleque invejoso. Calúnia! Mas desde sempre sabia que não podia confiar em Emanuelle, que parecia separada de mim por um vidro, uma tela. Fiquei transtornado, inconsolável, pelo menos até o primeiro par de peitos que de fato toquei. Mas isso é outra história. 
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