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16 de maio de 2015

Meu Vício: Um Relato









Tudo começou ainda na adolescência: mais do que me sentir sozinho, eu sentia que não fazia parte de nenhum grupo, de nenhuma panela. E isso para um adolescente é terrível. Então, nem tão por acaso, pois eu tinha escutado de outras pessoas que aquilo era "o escapismo" de que os "desajustados" tanto precisavam,  acabei me jogando de cabeça nisso. Testei aos treze  anos, de onda mesmo, pra ver se isso era essas coisas todas. E era! Na verdade, ainda é.
Algumas pessoas, assim que comecei, me advertiram, dizendo que esse era um caminho sem volta. Dei de ombros. Falei que poderia parar com aquilo quando quisesse. Ledo engano: depois da primeira vez, a necessidade só aumenta. Você precisa disso para fazer quase tudo, e quase tudo ao seu redor te incentiva a usar mais e mais. Enfim, após anos ininterruptos de uso percebi que, realmente, era um caminho sem volta. E aqui estou, anos depois, errante por esse caminho.
Juro que tentei parar, fiquei alguns períodos longe, mas sempre volto à estaca zero. Parece que não consigo ser eu mesmo sem isso, de tanto que necessito. Por isso meu jeito distraído, às vezes tão relaxado que quem olha pensa que estou flutuando... E estou. Sempre fui assim e esse meu vício só acentuou meu jeito de ser... Tão... Devagar.
Sei que tem vezes que fico muito tempo sem escrever...
Mas as letras me viciam de tal forma que sempre acabo voltando a escrever. Escrever é meu caminho sem volta.

13 de setembro de 2013

(Há) Vida na Morte (E Vice-Versa)





Viver é morrer, meu caro.
Quantas células de nosso corpo morrem por segundo? Muitas. Temos os fios de cabelo, que caem; As unhas, que são cortadas; Até mesmo o tomar banho é um pequeno suicídio. Não que eu vá deixar de cortar as unhas ou de tomar banho (e espero que ninguém assim o faça), mas essa dicotomia vida/morte nos é tão rotineira, que nem nos damos conta que o morrer é praticado desde a nossa concepção.
Há muito mais capítulos em nossa vida do que o ciclo “nascer, crescer, reproduzir, envelhecer, morrer”. Há pequenas mortes incontáveis nesse ciclo: transformações, rupturas, revoluções que matam o velho e se transformam no futuro velho, que morrerá um dia, como seu período antecessor,
nada mais.
A vida, se analisarmos friamente, é um coletivo de pequenas mortes.
Mas há vida até na nossa morte derradeira.

11 de setembro de 2012

Eu, cético? Pago pra ver!

"Muitos dão a vida por suas crenças. Nunca arrisquei a vida pelo meu ceticismo." - Millôr


Creio que inventei a modalidade “cético cagão”. Eu sempre sou um dos primeiros a levantar a voz pra falar “só acredito vendo”, mas também quando acontece alguma coisa que mexe com o meu ceticismo, fico uma semana sem dormir. Não costuma acontecer isso com tanta freqüência, mas quando acontece, mexe com minha cabeça de vento. Mas passa. Mas que mexe, mexe.
Pior que ser um “cético cagão” é ser um “cético cagão E curioso”. Se eu fosse daqueles que ficam seguros e felizes no conforto do meu ceticismo, seria ótimo. Mas não, eu tenho sempre que testar meu ceticismo para colocá-lo em forma. E um dos meus principais métodos de testar o meu peculiar grau de ceticismo é ler meu horóscopo, todo santo dia. Apesar de nunca acreditar nesse papo de signo para o bem do meu ceticismo, chego ao extremo de receber, por e-mail, meu horóscopo. Eu leio, presto atenção nos conselhos e tudo, mas como não somos obrigados a acreditar em tudo que falam pra gente, não dou trela pra 90% das coisas. Confesso que algumas (muitas) coisas são impraticáveis, como “seu signo recomenda que nos próximos 15 dias você não pode sair de casa” ou “fuja de conflitos no dia-a-dia” – e olha que adoro ficar sossegado em casa e adoro mais ainda praticar minha capacidade inata de ser da turma do “deixa disso” -, mas quando os astros decidem acertar, acertam na mosca (ou me levam a acreditar que eles acertam, sei lá). É nessas horas que o lado medroso do meu ceticismo fica assustado feito uma garotinha de dez anos, que se esconde debaixo de uma cama imaginária que fica na minha cabeça. Por um breve momento, meu mundo cai. Meu mundo cai, sinto as coisas rodando, vejo coisas hipotéticas como o Atlético Mineiro líder do campeonato brasileiro, mas dois minutos depois tudo volta ao normal. Meu abuso ainda me permite desafiar o desconhecido: sempre falo um “duvido acertar de novo!” e fica tudo certo.
Mas que dá um medo do desconhecido acertar de novo... Melhor nem falar muito.

22 de dezembro de 2011

NadaCrônicas


Ou Ainda Da Vez Em Que Encontrei Jesus

-         Jesus?
-         Sim, sou eu.
-         Oi, meu nome é Flavio e vim do futuro.
-         Como assim?
-         Sei lá. Só sei que eu ia visitar o Papai Noel. Saí de casa, fui para um ponto de ônibus, então parei o primeiro ônibus que passou. Perguntei “Pólo Norte?” e o motorista respondeu “Méier”. Já que tudo fica para os mesmos lados da rosa-dos-ventos – Pólo Norte, Zona Norte -, entrei no ônibus. Só que acabei pegando no sono, e quando acordei estava aqui.
-         Então você tem uma missão, meu filho. É coisa divina.
-         Tenho não.
-         Claro que tem! Você é um enviado dos Céus.
-         Dizem que é o contrário, mas tudo bem. Vou te avisar uma parada. Você fica fazendo milagre por aí, como andar na água, fazer cego enxergar, essas coisas?
-         Sim, por quê?
-         Olha, para com isso!
-         Por quê?
-         Os romanos já estão de olho em você...Tem um povo que tem uma inveja danada de você, abre o olho, rapaz. Conselho de amigo.
-         Mas eles não podem me crucificar por eu ser um iluminado, digo, O Iluminado.
-         Podem, e vão. Vai rolar sangue.
-         Como assim?
-         Já te disseram que você faz muitas perguntas?
-         Como assim?
-         Você transformou água em vinho ontem e bebeu um bocado ou você é assim mesmo?
-         Desculpa, é que estou meio confuso. Peraê, eu realmente transformei água em vinho ontem, como você sabe disso?
-         É que já escutei umas histórias sobre você.
-         Hum?
-         Longa história. Daria um livro. Uma Bíblia, de tão longa que é essa história.
-         Mas você vem de quando no futuro?
-         Pouca coisa, dois ônibus, 20 quilômetros e 2000 e poucos anos.
-         Tudo isso?
-         É. Mas faz esse favor para mim, fica fazendo esses milagres na moita, escondido, atendendo a domicílio, porque essa vibe de fazer milagre a torto e a direito vai dar um problemão para você. Depois você fica pregado e não sabe porquê!
-         Mas caí nas graças do povo! É todo mundo é gente fina. Eles gritam meu nome.
-         Gente fina que vai preferir um ladrão a você quando você for julgado. Guarde bem esse nome: Barrabás.
-         Como assim?
-         Olha, é meio complicado pra eu explicar essas coisas todas agora...Mas segue meus conselhos, para evitar problemas futuros, para mim e para você.
-         Por que problemas? Como assim?
-         De onde venho, mais ou menos nessa época a gente comemora seu aniversário.
-         Que bom! Mas qual o problema disso?
-         É que uma data que teoricamente seria de reflexão virou um inferno! É computador vendido em 482x com uns juros exorbitantes, é Papai Noel descendo de helicóptero no Maracanã, ninguém respeita ninguém nas ruas, é briga no supermercado por castanha e panetone, é aquela música insuportável da Simone...É complicado, Jesus, muito complicado...
-         Vou ver o que posso fazer, mesmo sem saber o que é supermercado, helicóptero ou Simone.
-         Tudo bem. Nem eu sei te dizer o que é a Simone. Posso te fazer uma pergunta?
-         Claro!
-         O Caxias-Pilares passa aqui perto?
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