Aquele
senhor com fone que sentou do meu lado devia estar escutando algo bem legal.
Por pouco, não pedi a ele para compartilhar comigo o que ele escutava, porque o
gestual dele era, pra mim, "bastante peculiar", para ficarmos numa definição
que não pareça que eu estava julgando aquele senhor.
Ele estava lá na dele, escutando o seu som, sossegado
("sossegado" é maneira de falar, podemos falar que ele estava era
amarradão no que escutava), mas o jeito dele em curtir a música era muito engraçado. Ele
batucava em sua coxa direita com uma cadência de quem estava escutando samba,
parecendo que tocava um pandeiro imaginário, mas batucava com uma força de que
estava escutando hardcore ou uma corrente do metal. Aí era inevitável que eu
com minha cabeça de vento começasse a me perguntar: Primeiro, afinal, o que
este senhor está escutando? Segundo, será que ele é de uma dissidência da Velha
Guarda da Portela, que seria mais punk? Ou ainda, será que eu estaria
assistindo a gênese de um novo estilo musical, bem do meu lado e num ônibus?
Tantas
perguntas que me passavam pela cabeça e elas ainda deram origem a uma leve
preocupação: como será que eu "batuco" quando estou envolvido com as
músicas do meu celular quando estou num ônibus, por exemplo? Acho que não
encontrarei respostas para nenhuma dessas perguntas. Mas fico feliz em ver que
a música, assim como biscoito Globo, pode ser o maior passatempo da sua viagem
no transporte público. Mas usando fone, hein, pessoal!
É inegável a influência negra na música contemporânea. Se formos parar para pensar e analisarmos os ritmos musicais de mais visibilidade durante o século XX e agora no século XXI, é impossível não contar as histórias de cada ritmo desses sem ver que todos tem em comum um pedaço de seu DNA negro.
Então pensei, para fugir um pouco de lugar comum de escrever mais um texto sobre o Dia da Consciência Negra (veja bem, não porque enjoei ou não ache necessário - muito pelo contrário! -, mas é para mudar um pouco a abordagem), resolvi fazer uma lista com músicas que gosto e que tem como temática a luta da população negra por mais direitos - não só no Brasil, mas no mundo. A partir de uma lista que tinha entre 10 a 15 músicas que lembrei de cara, decidi fazer um pequeno texto sobre cinco delas. As outras que sobraram da lista relacionei com as cinco, para que vocês também tenham a curiosidade de conhecê-las.
Desculpem-me se deixei fora dessa lista algumas músicas. Como disse, foi uma seleção rápida e pessoal. Opiniões são bem-vindas!
Vamos à lista!
Stevie Wonder - "Black Man"
Belíssima
canção do Stevie Wonder em que a gente vê o quanto Brasil e Estados Unidos são,
em vários pontos, bem parecidos. Stevie Wonder, ao mesmo tempo em que exalta a
diversidade étnica americana, falando de grandes feitos de negros, indígenas,
brancos, orientais e latinos, no refrão deixa bem claro que a liberdade pela
qual os americanos chegam a dar suas vidas seja algo que chegue a todos,
independentemente de sua origem. Em tempos em que estamos cada vez mais
buscando o que nos distancia de outros que são culturalmente diferentes, essa
canção cai como uma luva para aprendermos com aqueles que taxamos de "diferentes".
Essa música
é muito especial para mim, pois não há uma única vez que eu a escuto e que
não passa um filme na minha cabeça. Ela resume, em alguns minutos e ao mesmo
tempo, todos os obstáculos, perigos, orgulhos, vitórias (e um bocado de tiração
de onda, claro) que um negro pode ter ao longo de sua vida. O texto sobre
ela nessa lista que fiz é sucinto de propósito; é uma música que merece um
texto à parte, por todo o contexto histórico da época em que foi lançada, por
sua narrativa... Enfim. Já deu para perceber o quanto a música é representativa
para mim e para muitos.
Uma das
músicas do contundente álbum "To Pimp a Butterfly", do Kendrick Lamar, que expõe com
muita clareza as desigualdades e a tensão racial da sociedade americana em
pleno século XXI. O refrão dessa música inclusive virou palavras de ordem em
muitos dos protestos contra a violência policial que tiveram por lá no último ano. Seu
pré-refrão traduz todas essas tensões que ainda estão presentes na sociedade
americana (e sinto bastante similaridade com o caso brasileiro), mas seu refrão mostra que, apesar de toda essa situação, tudo acabará bem.
Uma das
inúmeras coisas legais que surgiram na música brasileira nos últimos anos, a
banda Aláfia nessa música expõe uma das facetas mais cruéis do preconceito
racial no Brasil: o "racismo velado" - e também que não estamos
nem um pouco dispostos a tolerar os que acham ofensas algo "politicamente incorreto". Acho
essa música uma síntese muito feliz (e cheia de suingue!) do momento que os afrodescendentes vem tendo de uns anos para
cá aqui no Brasil, sendo cada vez mais combativos e orgulhosos, e por isso o destaque dela nessa lista.
O Rappa - Todo
Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro
É uma triste
relação entre violência policial, desigualdade social e racismo. Comparar um
camburão com um navio negreiro não é exagero, infelizmente. Num país que tem uma
polícia que muito mata (e também muito morre) e índices assustadores se darmos
maior atenção aos que se referem à população afrodescendente no que tange a índices
sobre violência, expectativa de vida, anos de estudo, entre outros. Ou seja, é
o retrato de que passados mais de 120 anos da abolição da escravatura, a população
afrodescendente ainda tem muitos obstáculos a vencer. Vale a reflexão.
Amigos, na última sexta-feira (19/06)representei a banda Outros Caras no programa Painel da Manhã, na Rádio Roquette Pinto(94.1 FM), num papo sobre o lançamento virtual de nosso álbum "Algum Lugar", a cena independente e também algumas curiosidades sobre a banda. O programa também teve a participação da banda Kapitu(que, a propósito, faz um som de primeira, vale a pena escutar),que também lançou seu álbum, "Vermelho" através da internet. Sobrou até tempo para eu falar um pouco do Um Blog de Nada.
Queria agradecer à equipe do Painel da Manhã e especialmente ao meu amigo Fabiano Albergaria, um dos apresentadores do programa e meu amigo de longa data, pelo convite e pelo carinho. À banda Kapitu também, pelo bom papo e ideias que trocamos e também aos meus amigos de banda Felipe e Danilo, que infelizmente não puderam me fazer companhia, mas que confiaram que eu não falaria nenhuma besteira (por pouco, meus amigos, POR POUCO que as besteiras não saem! hahaha) e deixaram eu ir ao programa os representando.
"Que Jazz? O do 'Maluco no Pedaço'?" Não, ESSE Jazz:
Graças a
curiosidade musical que cresceu ainda mais desde que comecei a ter aulas de
música, de umas duas semanas para cá tenho dado uma atenção bem especial ao Jazz,
e, olha, estou gostando muito desse troço. Confesso que, mesmo me considerando
um sujeito muito curioso, tinha experimentado poucas vezes essa sensação de estudar
sobre algo que gosto muito a ponto de reparar em alguns detalhes que passavam batidos por mim, e isso me faz querer saber ainda mais sobre música. Acho que é isso que chamam de "semente
do conhecimento".
Mas (ah,
sempre ele, o "mas...") algumas perguntas passaram a morar na minha
cabeça graças ao Jazz, infelizmente motivadas não pela curiosidade musical como estava sendo, mas pelo excesso de senso comum de minha cabeça oca. São elas:
1 - Preciso
usar suéter, óculos, ter uma vitrola e uma biblioteca?
2 - Estou
ficando rico? Melhor, eu ESTOU rico (já que o Jazz é, hoje, um produto cultural
mais "de elite")?
3 - Estou
ficando velho (pois já escutei mil vezes que escutar Jazz é "coisa de velho")?
4 - Preciso
reunir as minhas amigas do tempo de escola que dançavam Jazz para, dessa vez,
dançar junto com elas?
Claro, amigos,
são questões levantadas mais pela minha
capacidade de brincar com os fatos do que uma real preocupação de fato (ou seja, de levar minha ignorância tão a sério), mas
mesmo assim elas carregam aqueles estereótipo do "ouvinte do Jazz",
do "Jazz-música-de-velho", entre outras coisas. Mas como não sou
muito de facilitar com a ignorância, não ia começar a dar esse mole justamente
com a minha ignorância. Seguem, então, as respostas que dei para mim mesmo:
1 - Se você
está escutando Jazz de bermuda e sem camisa, forçando a vista pois nunca fez os
malditos óculos para não cansá-la, sentado na frente do seu
computador, você ainda acha que precisa ter "uniforme"
para escutar Jazz?
2 - Claro!
Afinal, professor da educação básica ganha mais que fiscal da Receita, não é?
3 - Flavio,
meu amigo, você já NASCEU velho. Era a única criança da antiga segunda série
que já tinha bigode. O Jazz nasceu para você, pois você é tão velho de cabeça que
você nasceu ANTES do Jazz.
4 - Sim, mas
só se você usar collant e fazer coque para dançar, que, convenhamos, não vai
ficar muito legal visualmente. Então é melhor esquecer.
Depois de
respostas tão esclarecedoras para mim mesmo, resolvi deixar de bobeira. Ganho
muito mais viajando no Jazz do que nessas questões baratas. Mas que é bom tirar
sarro da ignorância de vez em quando... Mesmo quando a ignorância é minha.
Para a galera que gostou da última postagem um presente, o poema "Brincar de Fazer Samba", versão música.
Paciência com o garoto do violão, pois ele sabe apenas o básico do instrumento (aprendeu, por exemplo, há uns dias atrás que violão não é instrumento de sopro). Acredito que tenha uma coisa ou outra pra corrigir na música, mas o bruto dela é isso aí. Apreciem!
É inegável a
contribuição do genial Jorge Ben (Jor) a MPB. No meu "ranking"
particular, ele facilmente figura no "Top 10". Além disso, ele pode ser considerado
um dos pontos de partida para entendermos a nossa música popular de uns 50 anos
para cá. Eu sou suspeito para falar dele, pois sou um daqueles admiradores que
escuta sua obra sob diversos pontos de vista. E um dos que mais contribuiu para
essa admiração que eu nutro por ele é o ponto de vista que por esses dias apelidei
de "Didática Jorgebenjorniana". Por quê?
"Didática
Jorgebenjorniana" pois algumas letras de músicas dele são, justamente,
didáticas. Claro, Jorge Ben (Jor), se comparado a algumas figuras de sua geração,
como Chico Buarque, Gil, Caetano, está longe de ser considerado um letrista de mão
cheia. E confesso que algumas de suas letras de música confirmam isso (até hoje
me pergunto, por exemplo, o sentido por
trás da letra de "W/Brasil", com os famosos versos "Jacarezinho!
Avião!/Cuidado com o disco voador/Tira essa escada daí/Essa escada é prá ficar
aqui fora/Eu vou chamar o síndico/Tim Maia!"). Porém, algumas outras são verdadeiras
aulas. E vou falar só os exemplos que vieram à minha cabeça, pois provavelmente
tem outras músicas que seguem esse padrão, mas que eu precisaria de um tempo
para lembrar. Vou focar em quatro letras, uma que é uma aula básica de Química,
e três que tem uma incrível relação com minha área de trabalho (a História).
São elas, "Os Alquimistas Estão Chegando" (do álbum "A Tábua da
Esmeralda"), "África Brasil (Zumbi)", "Xica da Silva" e "Taj
Mahal" (do álbum "África Brasil").
"Os
Alquimistas Estão Chegando"
Uma aula
básica de Química, em que Jorge Ben (Jor) descreve um pouco o modo de trabalho
dos alquimistas (que, grosso modo, poderiam ser considerados os "pais" dos
químicos) em busca da Pedra Filosofal. Versos como " Eles são discretos/E
silenciosos/Moram bem longe dos homens" e " Evitam qualquer
relação/Com pessoas/De temperamento sórdido... " nos mostram que os
alquimistas buscavam o isolamento para fazer suas experiências sem serem
incomodados, como um bom estudioso preza. Mas os versos mais reveladores são os
que falam sobre os métodos e os instrumentos que eles utilizavam ("Executam/Segundo
as regras herméticas/Desde a trituração, a fixação/A destilação e a
coagulação..." e " Trazem consigo, cadinhos/Vasos de vidro/Potes de
louça/Todos bem e iluminados ").
"África
Brasil (Zumbi)"
Uma
verdadeira aula sobre Brasil Colonial, em que ele começa a letra enumerando as
diferentes procedências dos negros escravizados ("Angola, Congo, Benguela/Monjolo,
Cabinda, Nina/Quiloa, Rebolo"). Logo depois, descreve magistralmente, o
destino dos negros que chegam aqui no Brasil escravizados ("Aqui onde
estão os homens/Há um grande leilão/Dizem que nele há uma princesa à venda/Que
veio junto com seus súditos/Acorrentados em carros de boi") e também
descreve os lugares em que essa mão-de-obra negra era utilizada ("Pois
aqui onde estão os homens/Dum lado, cana-de-açúcar/Do outro lado, um imenso
cafezal/Ao centro, senhores sentados/Vendo a colheita do algodão branco/Sendo
colhidos por mãos negras ") e por fim a homenagem a uma das figuras negras
mais emblemáticas do período colonial, Zumbi, que ainda surgirá como um herói
para acabar com essa exploração ("Eu quero ver quando Zumbi chegar/Eu
quero ver o que vai acontecer/Zumbi é senhor das guerras").
Particularmente, é uma das minhas músicas prediletas.
"Xica
da Silva"
Música em
homenagem a uma outra figura negra emblemática que viveu durante o período
colonial, Chica da Silva. Agora o pano de fundo é a exploração das minas de
ouro e diamantes da região de Minas Gerais, que teve seu ápice durante o século
XVIII. Jorge Ben (Jor) descreve todo o luxo que cercava Chica da Silva, que manteve
uma relação consensual com o "fidalgo tratador João Fernandes", rico
contratador de diamantes (obrigado Wikipédia! Tem horas que você usa as
melhores palavras). Jorge Ben (Jor) fala brevemente sobre a trajetória da personagem, que
foi de escrava alforriada a amante do fidalgo citado, contudo dá um enfoque maior no luxo (e
ostentação) de Chica da Silva. A letra toda merece destaque, pois é muito
descritiva. Acho até injusto pegar alguns versos. Mas uma mulher que tinha um
castelo, um lago artificial e era obrigada a "A ser recebida/Como uma grande
senhora/Da corte/Do Rei Luís" não merece passar anonimamente pela nossa
história...
"Taj
Mahal"
Com certeza
a mais famosa das músicas aqui descritas, "Taj Mahal" é inspirada na
história da construção do famoso mausoléu indiano, que foi construído pelo imperador
Shan Jahan em homenagem a sua falecida esposa Mumtaz Mahal. É a menos
descritiva (e a mais cheia de "tereteretê") das letras que coloquei
aqui, pois ele explica muito por alto essa história de amor, que, por sinal,
vale a pesquisada, pois é uma senhora história de amor. Apesar de ser uma letra breve, merece o destaque.
Essa é só
uma das facetas do gênio Jorge Ben (Jor). Mais pra frente eu espero trazer pra
vocês outras impressões que tenho quando escuto as músicas dessa grande figura!