Aprendi, ao
longo da minha vida, que cada um tem a sua "Disneylândia" idealizada.
Se a terra do Mickey é o paraíso para crianças de 8 a 80 anos, creio que a Comic
Con de San Diego seja o paraíso para a galera que gosta de animes, quadrinhos,
séries etc, ou ainda uma livraria seja o paraíso para leitores inveterados,
isso só para ficarmos em alguns exemplos. Porém, outra coisa que aprendi cruelmente
desde cedo é que, infelizmente, nem sempre querer é poder. Então acabamos
procurando as "Disneylândias" possíveis, para servirem, no mínimo,
como refúgios intermediários até conseguirmos recurso$$$ para irmos aos nossos paraísos idealizados.
E são
justamente os "paraísos possíveis" os mais reveladores. Acho isso
porque neles voltamos a ser crianças. Quando crianças, ao entrar numa loja de
brinquedos, queríamos levar tudo; hoje ao entrar em algum lugar que nos serve
como refúgio (refúgio do nosso consumo, pois o consumo é um brevíssimo bem-estar
que precede uma fatura de cartão mais sem solução do que dívidas de clubes
de futebol carioca), queremos levar dele tudo também. A maturidade que a idade
nos traz é só uma vaga lembrança em meio a tantas bugigangas que nos cercam
nesses lugares. E acredito que cada grupo, cada profissão, deva ter um lugar em
que todos se comportam de maneira parecida. E a dos professores, com certeza,
são as papelarias.
Ao contrário de muitos amigos professores, (ainda)
não fiquei viciado em café. Mas aos poucos começo a entender o fascínio que as
papelarias exercem sobre nossa categoria. É muito engraçado, por exemplo,
entrar numa dessas grandes papelarias de shopping e ver a galera se perdendo em
cadernos, lápis, canetas, canetas para quadro branco, pastas... É possível ver
alguns em transe. Talvez o fraco por papelarias dos professores só não é maior
do que o vício em cheirar um livro novo (ou do vício - já aposentado pela
tecnologia - de cheirar as folhas após elas passarem por um mimeógrafo). É nas
papelarias que nossos bravos professores esquecem de seus salários inversamente
proporcionais à grandeza de sua profissão e gastam como se não houvesse amanhã
(ou como se tivesse acabado de ganhar um 14° salário). O professor corre o risco de entrar
para comprar um pacote de 100 folhas para sua impressora e acaba saindo com
material suficiente para abrir uma escola.
Logo, se
você um dia precisar ir numa papelaria de grande porte e ver um sujeito com
pupilas dilatadas, com um leve sorriso no rosto, andando de um lado para o
outro, com vários produtos debaixo do braço e procurando ainda mais alguns,
pode ter certeza, ele é um professor. Fique tranquilo, ele não morde. Só não o
faça lembrar que ele vai se assustar com o total das compras se ele for levar
esses troços todos. Porque se você o fizer, você verá o fim da euforia e o
início da agonia, tal qual como o fim do efeito de uma droga. É deprimente
entrar querendo comprar tudo e conseguir levar só uma caixa de dois lápis, pois
até aquela caneta com três cores anda custando os olhos da cara. Triste.
