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20 de setembro de 2014

Há Luta Enquanto Há Esperança


Isso que vou lhes contar foi um dos gestos mais comoventes que já vi. Ainda mais quando esse gesto é direcionado a mim.
Como os amigos deste espaço devem saber, meu avô morreu há quase um mês atrás. E perder um ente querido nunca é fácil, mas a gente tem que levantar e continuar nossa caminhada. Claro que aquele vazio é algo que jamais será preenchido, mas o que nos resta é buscar força e inspiração para seguir em frente.
E uma das maiores inspirações para mim veio no dia seguinte ao enterro de meu avô. Voltei a trabalhar, depois de dois dias, numa das escolas em que dou aula. Enquanto conversava com uma amiga na sala dos professores, entra pela porta um aluno de uma turma do 6° ano, que me entrega um daqueles panfletos de igreja evangélica (que me foge a exata denominação agora), falando que um amigo dele, aluno meu, de uma turma de 8° ano, pediu para me entregar. Estou longe de ser um homem religioso, como alguns já devem ter percebido, mas esse simples gesto mexeu comigo. Não por ter encontrado conforto nas palavras do panfleto ou isso ter sido uma revelação a ponto de eu procurar uma religião imediatamente. Mas fiquei comovido com o gesto desse meu aluno, que percebeu o quanto eu estava sofrendo e foi solidário a minha dor.
É comovente, pois essas crianças "crias" de comunidades carentes são taxadas de coisas tão ruins antes mesmo de saber o significado dos adjetivos que a sociedade impõe a elas, inclusive de que elas são insensíveis, sem muitas vezes levar em consideração a realidade conturbada em que essas crianças estão inseridas. E esse gesto nos mostra que há, sim, esperança. Creio que em algum momento devo ter atingido o coraçãozinho desse garoto com alguma atitude simples, mas positiva, a ponto dele retribuir esse carinho. Confesso que segurei as lágrimas até chegar em casa, mas quando coloquei o pé em casa... Foi um "dilúvio". Essas lágrimas foram pela dor de ter perdido alguém tão especial? Também. Mas confesso que elas foram mais de gratidão a deus, ou ao "algo-que-está-acima-do-nosso-entendimento", como penso, me mandar um "anjo" numa hora tão difícil e mais do que isso, isso me faz ver que faço certo em ao menos tentar em não desistir dessas crianças, que muito me surpreendem mostrando potencial que a escola, do jeito que fazemos educação hoje (ainda mais a educação pública, onde a escola virou um "depósito de gente"), não consegue aproveitar. E essa negligência do potencial, da sensibilidade e de outras coisas que fazem com que muitas dessas crianças desistam de seus sonhos.
Às pessoas que vieram a mim com palavras de conforto, que rezaram por meu avô ou mesmo que no seu silêncio nos mandou vibrações positivas, meu muito obrigado. Talvez sem vocês superar isso seria ainda mais difícil.

10 de agosto de 2014

A Crise dos (quase) 30





Envelhecer... Tem horas que essa palavra me dá calafrios. E só de imaginar que daqui a um tempo eu vou precisar de um par de óculos para enxergar de perto, de outro para enxergar de longe, de um terceiro par para procurar os outros dois e um remédio para memória que me faça lembrar onde guardei esses malditos três pares de óculos, já fico meio apreensivo. Brincadeiras a parte, acho que o processo de mudança do corpo só não deve ser mais complicado de aceitar do que as mudanças do mundo à nossa volta.
Creio que a tal “crise dos 30” tem me cercado. Eu vejo meus amigos mais próximos casando, outros já casados há algum par de anos, alguns tendo filhos e me pergunto: “será que estou errado?”. Porque, apesar de pensar em, um dia, construir uma família, é algo que ainda sinto que não está na hora, e, pior, tem horas em que acho que vai demorar mais um pouco pra chegar a hora. Seria o fato de admitir que sou um sujeito imaturo, irresponsável e que mal consegue tomar conta de uma tartaruga (Tortuguita fugiu faz algumas semanas fugindo pela porta da frente do meu apartamento e ainda não me recuperei. Desculpa)? Talvez. Mas sei que, por outro lado, cada um tem seu ritmo. O meu receio é meu ritmo estar lento, só isso. Mas lento ou não, sei que um dia essa hora chega. E mesmo se não chegar, já tranquilizei (ou amedrontei?) minha irmã, falando que tenho todos os predicados de um tiozão gente boa, que vai perguntar sobre “as namoradinha” pros sobrinhos e fazer a clássica piada do “é pavê ou pá comê”. Não é nada, não é nada, acabo me preparando, pensando em todas as possibilidades.  
É engraçado parar para pensar e chegar a conclusão que parece que foi ontem que eu discutia sobre o melhor jogo de futebol para computador com a molecada na escola. E mais engraçado ainda é ver que isso aconteceu mesmo, já que eu discutia essa questão fundamental para a existência para qualquer homem com meus alunos de 13 anos na escola em que dou aula. Acho que me falta só um pouco de maturidade. Só acho.

2 de agosto de 2014

Um Sonho...

"E eu que sempre quis um lugar, gramado e limpo, assim verde como o mar/ Cercas brancas, uma seringueira com balança/ Disbicando pipa, cercado de criança..." (Racionais Mc's, "Vida Loka - Parte II")


Um dia, quando nascer cabelo no meu peito ou quando o Brasil levar a educação a sério (o que vier primeiro!), pretendo ser um pai de família. Mas me imagino um pai de família meio que das antigas, daqueles que constrói uma família com uma patroa gente boa que, sempre muito educada, sempre vai me deixar dar a palavra final em casa (“sim, senhora!”), numa casa simples, mas aconchegante no Engenho de Dentro, com um quintalzinho pra receber os amigos nos fins de semana pra jogar conversa fora e para a molecada brincar, e assim eu viver e envelhecer tranquilo (e enfim morrer, pois é o que nos é mais certo na vida), ciente que fui uma pessoa boa e que, embora tenha errado algumas vezes, errou por excesso de tentativas, não pela falta delas. Mas aí olho o quanto os imóveis no grande Meier estão caras, que criar filho não é brincadeira e que alguns amigos não tem dado nem um “oi” pelo Facebook (nessa ordem) e desanimo um pouco. Mas o sonho de "só" ser feliz é o que ilumina meus caminhos. Aí volto a sonhar com isso tudo e volto a abrir um sorriso.

29 de julho de 2014

O Hip Hop Salvou Minha Vida

Capa do álbum "Nada Como Um Dia Após O Outro Dia", dos Racionais Mc's, provavelmente o álbum que mais marcou a minha vida.
 
"My ideas are only for the audience's ears
For my opponents, it might take years
Pencils and pens, are swords
Letters put together form a key to chords
I'm also a sculpture, born with structure
Because of my culture, I'm a rip and destruct the
Difficult styles that'll be for the technology
Complete sights and new heights after I get deep
You don't have to speak just seek
And peep the technique" 


(Eric B. & Rakim, "Don't Swear The Technique" - https://www.youtube.com/watch?v=6Y1Emb7Jyks)



Esqueçam por alguns minutos os clipes regados (literalmente) a champanhes caros e com mulheres de traseiro maior que o estado de Minas Gerais, ou os cordões de ouro do tamanho de uma roda e cravejados de diamantes, as calças caídas quase até o joelho, aos horrorosos bonés de aba reta, ou ainda as brigas de gangue e aos picaretas que tentaram pegar carona na grandeza na cultura hip hop. “Então, Flavio, se você pediu pra esquecermos disso tudo que é associado ao hip hop, você vai falar de hip hop instrumental?” HÁ-HÁ-HÁ. Não, anta. O papo é sim sobre hip hop, mas é a partir de uma abordagem bastante particular. Falarei como o hip hop mudou a minha vida.
Tive a idéia de escrever sobre isso ao ver uma camiseta com a frase “O hip hop salvou minha vida”. Na verdade, já tinha cansado de ver essa camiseta (até comprei uma, por sinal), mas pela primeira vez me perguntei se essa afirmação pra mim era verdade. E, apesar de eu não escrever raps, não entender muito de batidas, de grafite e muito menos de dançar break, digo sem pensar muito: o hip hop salvou minha vida, sim.
Essa "salvação" foi feito na minha entrada da adolescência. Pela primeira vez na minha vida, graças ao empurrãozinho que o hip hop me deu para começar a escrever, vi que eu tinha um canal que eu poderia falar sobre o que eu via, vivia e sentia. A partir daí, eu comecei a escrever textos, principalmente poesias. Se, por exemplo, eu tivesse a oportunidade de mostrar a vocês meu primeiro caderno de poesias, vocês veriam que a influência do rap é enorme, seja nos temas (e na contundência que mostro ao falar de qualquer tema que me vinha à cabeça), seja no tamanho das poesias. Costumo dizer que as letras de rap me abriram as portas para o maravilhoso mundo da poesia e da escrita em geral, por isso o fato de eu dizer que o estilo musical salvou minha vida, por me abrir novos horizontes. Brinco (mas com um quê de verdade) que se hoje conheço Vinícius de Moraes foi porque os Racionais Mc’s me apresentaram a ele. E a busca por aprimorar as coisas que eu escrevia me levou, de uma forma natural, a procurar como os grandes mestres da literatura escreviam. Partindo desse ponto, vi que eu poderia fazer algo que tivesse a minha cara, misturando o que eu conseguia absorver da poética, das histórias das letras de rap e do que eu absorvia de mais criativo da literatura. Assim, vários de mim que eu não conhecia (alguns até que conheci depois de homem velho, imaginem só) afloraram nas coisas que eu escrevia: o contestador, o apaixonado, o sarcástico, o econômico nas palavras, entre outros tantos Flavios que povoam minha cabeça. Para mim, o hip hop acabou sendo muito mais do que uma mera influência nas coisas que eu escrevia: foi, acima de tudo, um passaporte para meu autoconhecimento. Com o hip hop me descobri mais forte, mais crítico, mais sensível aos males do mundo, fora a constatação de que eu tinha (e tenho!) muita coisa pra compartilhar com o mundo.
O hip hop, apesar do seu lado que não me identifico (que, admito, tem até seu lado legal, mas que, como coloquei no início do texto, esqueçam dele um pouco e se aprofundem no que é mais contestador, criativo e/ou inovador no estilo), foi, e é, uma força que exerce grande influência no pavimentar dos meus caminhos em vida. Ele colaborou no molde da minha personalidade e na minha visão sobre o mundo. Creio que o mínimo que posso fazer é dar um enorme obrigado a coisa que foi a força para tantas mudanças e a trilha sonora de tantos capítulos da minha vida. Obrigado, hip hop!

15 de janeiro de 2014

A Maior de Todas As Nossas Batalhas





Ainda pretendo, durante toda a minha vida, travar muitas batalhas. Batalhas contra o mundo, batalhas em que sou meu maior inimigo, batalhas físicas, morais... Enfim. São batalhas diárias que qualquer pessoa está destinada a lutar, e não poderia ser diferente comigo. Creio que essas são batalhas que, na verdade, raramente tratam de te taxar como vencedor ou perdedor, são batalhas que servem para selar quais caminhos você escolhe para sua vida. Ou seja, se tratam mais de escolhas do que de batalhas, mas são batalhas no sentido de te colocar à prova diariamente.
Mas há aquela batalha na vida de cada um que é, sim, uma batalha daquelas que pode ser a maior delas. Aquela que é travada com um misto de honra, raiva, astúcia, vaidade e, às vezes, derrama-se um pouco de sangue. É uma disputa bem maior do que um Fla-Flu em final de campeonato, mais avassaladora do que uma guerra nuclear e mais velha do que a batalha entre o Bem e o Mal. É a batalha definitiva. E sinto, de uns meses para cá, que a minha maior batalha está cada vez mais próxima. E como não poderia deixar de ser, venho praticando para que eu saia como vencedor, mesmo que (me desculpe pela alta carga dramática) ela possa custar minha vida.
Mas quando acontecer, sei que estarei preparado.
E só me falta uma coisa para travar essa batalha.
Algum canhoto por aí que tenha um método inteligente de abrir uma lata de leite condensado?
Vou aprender a abrir uma lata de leite condensado nem que seja a última coisa que eu faça!

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A seguir, a partir do próximo ano letivo: as apocalípticas batalhas contra a tesoura e a cola (conhecida também como “Um Professor em Apuros” ou ainda “Fui Reprovado no Jardim III, E Agora?”)
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