A nossa
libertação das correntes da opressão, e não importa qual seja ela, é uma luta
diária. É matar leões por dia, são mudanças a passos de tartaruga, é um
trabalho de formiguinha. E para quem carrega a marca recente (em termos
históricos) da escravidão na cor da pele, por ser descendente de negros escravizados, sabe disso. Lá atrás, a luta de nossos ancestrais foi muito dura para
que estivéssemos aqui, gozando de uma liberdade que eles não tiveram.
Precisamos de uma lei para dizer que não mais éramos escravos, ou seja, não foi
uma atitude benevolente dos escravocratas, que chiaram muito por conseguirmos
essa tal de liberdade – e é por isso que desconfio piamente que existe sim uma
cláusula que revogue a Lei Áurea, a ponto de deixar meus advogados de plantão.
Mas a Lei
Áurea nos deixou abandonados a própria sorte. Não existiu uma política de
inclusão da população negra na sociedade. E isso, infelizmente, se reflete até
hoje. Um abismo social nos faz morrer mais jovens, nos faz ter menos anos de
estudo, nos faz ganhar menos em nossos empregos.
Mas hoje não
vim expor nossas angústias. Hoje não, por favor! Que a gente olhe pra trás e
sinta orgulho do caminho que nossos avós, nossos pais e nós percorremos até
aqui.
Nada nos foi
dado de graça (nem as polêmicas cotas nas universidades, que deixo pra discutir
em outra ocasião). Hoje, mesmo com muitas coisas a se conquistar, podemos nos
orgulhar do que foi conquistado até aqui. Mas uma coisa que sinto que estamos
ganhando a cada dia que passa – que talvez seja a força motriz para nossas
futuras conquistas de uma sociedade brasileira, enfim, justa, independente da
cor de pele, origem social, opção sexual, religião e outras barreiras que são
mais usadas ultimamente para separar ao invés de unir -, é a nossa autoestima.
Sempre nos
disseram, subliminarmente (ou não), que nós não nos encaixávamos nos padrões de
beleza - a não ser a “mulata tipo exportação”, que tem o agravante de carregar
uma bagagem sexista, ou seja, da mulher negra como simples objeto de desejo
sexual -. O negro, além de marginalizado na sociedade, carregava – e ainda
carrega, infelizmente – o fato de não estar dentro do que era, ou ainda é, tido como o “padrão
de beleza” correto. E creio que estamos
quebrando, aos poucos, esse paradigma. É muito gostoso ver cada vez mais as
pessoas usando tranças, cabelos Black Power, usando adereços que dizem ao mundo
que estamos nos livrando, mesmo que aos poucos, de um padrão de beleza que nos
é imposto desde que nascemos. É mais uma das nossas lutas diárias, pois sempre
escutamos que cabelo crespo é “cabelo ruim”. Como um tipo de cabelo pode ser
“ruim”, se são infinitas as possibilidades de estilo, de cortes, de penteados?
Se ainda há
dúvidas de que estamos cada vez mais confiantes de que podemos sim lutar por
tantas injustiças (não só contra os negros, mas contra qualquer grupo
marginalizado num país racista, machista e elitista) e que vamos buscar essa
justiça, os penteados me dizem muito e de uma forma que é válido acreditar. Até
porque eles me dizem que a transformação da parte da cabeça de cada pessoa que
realmente conta (ou seja, a parte de dentro da cabeça) pode até ser vagarosa, mas está em curso. E é isso
que realmente importa.

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