20 de novembro de 2015

O Orgulho Negro em Canções

É inegável a influência negra na música contemporânea. Se formos parar para pensar e analisarmos os ritmos musicais de mais visibilidade durante o século XX e agora no século XXI, é impossível não contar as histórias de cada ritmo desses sem ver que todos tem em comum um pedaço de seu DNA negro.
Então pensei, para fugir um pouco de lugar comum de escrever mais um texto sobre o Dia da Consciência Negra (veja bem, não porque enjoei ou não ache necessário - muito pelo contrário! -, mas é para mudar um pouco a abordagem), resolvi fazer uma lista com músicas que gosto e que tem como temática a luta da população negra por mais direitos -  não só no Brasil, mas no mundo. A partir de uma lista que tinha entre 10 a 15 músicas que lembrei de cara, decidi fazer um pequeno texto sobre cinco delas. As outras que sobraram da lista relacionei com as cinco, para que vocês também tenham a curiosidade de conhecê-las.
Desculpem-me se deixei fora dessa lista algumas músicas. Como disse, foi uma seleção rápida e pessoal. Opiniões são bem-vindas!

Vamos à lista!

Stevie Wonder - "Black Man"
 


Belíssima canção do Stevie Wonder em que a gente vê o quanto Brasil e Estados Unidos são, em vários pontos, bem parecidos. Stevie Wonder, ao mesmo tempo em que exalta a diversidade étnica americana, falando de grandes feitos de negros, indígenas, brancos, orientais e latinos, no refrão deixa bem claro que a liberdade pela qual os americanos chegam a dar suas vidas seja algo que chegue a todos, independentemente de sua origem. Em tempos em que estamos cada vez mais buscando o que nos distancia de outros que são culturalmente diferentes, essa canção cai como uma luva para aprendermos com aqueles que taxamos de "diferentes".

Outras músicas relacionadas: "Soldier", Erykah Badu e "Redemption Song", Bob Marley.

Racionais Mc's - Negro Drama



Essa música é muito especial para mim, pois não há uma única vez que eu a escuto e que não passa um filme na minha cabeça. Ela resume, em alguns minutos e ao mesmo tempo, todos os obstáculos, perigos, orgulhos, vitórias (e um bocado de tiração de onda, claro) que um negro pode ter ao longo de sua vida. O texto sobre ela nessa lista que fiz é sucinto de propósito; é uma música que merece um texto à parte, por todo o contexto histórico da época em que foi lançada, por sua narrativa... Enfim. Já deu para perceber o quanto a música é representativa para mim e para muitos.


Kendrick Lamar - Alright



Uma das músicas do contundente álbum "To Pimp a Butterfly", do Kendrick Lamar, que expõe com muita clareza as desigualdades e a tensão racial da sociedade americana em pleno século XXI. O refrão dessa música inclusive virou palavras de ordem em muitos dos protestos contra a violência policial que tiveram por lá no último ano. Seu pré-refrão traduz todas essas tensões que ainda estão presentes na sociedade americana (e sinto bastante similaridade com o caso brasileiro), mas seu refrão mostra que, apesar de toda essa situação, tudo acabará bem.

Outras músicas relacionadas: O último álbum do Kendrick Lamar, "To Pimp a Butterfly", "África Brasil", Jorge Ben, "Boa Esperança", Emicida

Aláfia - Preto Cismado



Uma das inúmeras coisas legais que surgiram na música brasileira nos últimos anos, a banda Aláfia nessa música expõe uma das facetas mais cruéis do preconceito racial no Brasil: o "racismo velado" - e também que não estamos nem um pouco dispostos a tolerar os que acham ofensas algo "politicamente incorreto". Acho essa música uma síntese muito feliz (e cheia de suingue!) do momento que os afrodescendentes vem tendo de uns anos para cá aqui no Brasil, sendo cada vez mais combativos e orgulhosos, e por isso o destaque dela nessa lista.


O Rappa - Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro



É uma triste relação entre violência policial, desigualdade social e racismo. Comparar um camburão com um navio negreiro não é exagero, infelizmente. Num país que tem uma polícia que muito mata (e também muito morre) e índices assustadores se darmos maior atenção aos que se referem à população afrodescendente no que tange a índices sobre violência, expectativa de vida, anos de estudo, entre outros. Ou seja, é o retrato de que passados mais de 120 anos da abolição da escravatura, a população afrodescendente ainda tem muitos obstáculos a vencer. Vale a reflexão.

Outras músicas relacionadas: "Cê Lá Faz Ideia", Emicida

10 de novembro de 2015

Naquela Hora, Naquela Aula... Outra Aula




Não lembro exatamente o porquê do assunto surgir ali, naquela hora. Se não me engano, foi a partir de uma pergunta de um dos alunos sobre colonização portuguesa, que respondi e a partir daí o assunto fluiu. E o assunto era um dos mais espinhosos: RACISMO. Não espinhoso por ser "polêmico", até porque como professor negro, de origem humilde e dando aula numa das comunidades mais conturbadas do Rio de Janeiro, eu não poderia nunca sair pela tangente diante de tal assunto. Mas talvez, na inocência que ainda carrego, acreditei por um instante que a cabecinha deles poderia dar asas a "lugares comuns" que insistem em empurrar goela abaixo ao nosso povo, para que ele continue onde está e como está.
Mas eu estava errado. Ainda bem.
Mais recompensador em sentir que eles prestavam atenção na minha fala (já que uma das regras de ouro que aprendi dando aula é que os alunos muitas vezes adoram escutar as nossas experiências de vida) foi ver que eles também tinham algo a dizer. Opiniões contundentes e histórias tão tristes (ou mais tristes) de ser vítima de preconceito e discriminação quanto as minhas. Isso de crianças de 12, 13 anos.
Infelizmente, tive que alertá-los que histórias chatas como essas tem grandes chances de se repetir ao longo da vida deles. Elas se repetiram comigo, que não moro em comunidade, sou funcionário público, não tenho antecedentes criminais... Mas mesmo assim morro de medo da Policia Militar e odeio ir a bancos por conta do racismo institucional, fora o racismo cotidiano que está nas entranhas da nossa sociedade.
Mas falei que eles são o futuro. Que eles são os donos de seus destinos. Que o combate ao racismo, ao machismo, a desigualdade social é problema meu, é problema deles, é problema de todo mundo. Mas que eles tem a cabeça mais fresca para continuar as mudanças que, vagarosamente, acontecem no Brasil nos últimos 15, 20 anos. Que eles não permitam que as suas vozes sejam caladas por quem tem medo de gente como a gente.
E eles sorriram.
E eu sorri mais ainda, com lágrima nos olhos.
E vi que mesmo na minha turma mais indisciplinada (e de meus alunos mais indisciplinados dessa turma, que foram os que mais participaram dessa breve discussão) podemos aprender muito. Mais do que isso, aprender a ter esperança e confiança que estamos fazendo um bom trabalho.   

15 de outubro de 2015

Feliz Dia dos Professores (Até Porque Amanhã a Luta Continua)




Uma pequena parte de alguns dos meus amigos mais inspiradores. Teria que ter pelo menos mais dez fotos para colocar todo mundo!

Diferente das outras milhões de vezes, comecei um texto do final, do último parágrafo para ser mais exato. E já vou adiantando (até para que você não perca seu tempo lendo), o último parágrafo não foge muito das obviedades faladas pelos professores, por isso que foi fácil começar do final. Talvez até mesmo o texto todo em si não fuja de obviedades sobre o que é ser professor, sobre nossas dificuldades, sobre os prazeres que a profissão nos proporciona, mas ano após ano algo lá no âmago do meu ser me fala que eu tenho que reforçar essa série de coisas, justamente para que as pessoas acompanhem com mais carinho a situação da categoria e também de nossos alunos e também serve como um renovar de ânimo para mim em continuar no magistério, pois, confesso, tem horas que quase desisto.
Mas não desisto. E não sei exatamente o motivo de não ter desistido.
Talvez porque, apesar de tudo, sinto que é uma das coisas que faço de melhor, mesmo que eu não seja o melhor no que eu faço, pois vejo que preciso me aperfeiçoar em muitas coisas. Mas para melhor aperfeiçoamento de alguma dessas coisas, preciso ter o mínimo de tempo para me dedicar, e "tempo" para um professor atualmente é algo tão complicado ter  "aumentos salariais acima da inflação".
Talvez porque vejo em cada aluno meu um pouco de mim, pois muitos enfrentam ou enfrentarão obstáculos muito parecidos com os que enfrentei. Alguns já enfrentam obstáculos muito grandes até para pessoas da minha idade, então me sobra apenas o papel de tentar ajudar a superá-los pelo caminho da educação, que pode ser pouco, mas é o que ajuda e dá esperança a muitos em situação de fragilidade familiar e social, por exemplo.
Talvez porque sinto que faço parte de uma geração que deu início a algumas mudanças significativas na nossa sociedade e me sinto na missão de passar essa missão adiante. Mas que não me vejam como doutrinador ou algo parecido, porque acredito que não o sou e odiaria sê-lo, mas como um conselheiro, pois essa molecada tem direito de saber que ela pode ir mais longe, mas que são eles os donos do destino deles.
Talvez porque toda vez que me sinto em dúvida, ou mesmo desestimulado a ponto de jogar tudo para o alto, eu lembro do sorriso dos meus alunos a cada acerto, a cada elogio recebido, a cada demonstração minha e de outros colegas de profissão de que não somos melhores do que eles e que o processo de aprendizagem é bilateral.
Talvez porque tenho sorte de, não raro, olhar para o lado e ver amigos que desenvolvem trabalhos tão inspiradores que eu sinto que preciso estar perto do nível deles, pois eles merecem ter ao lado pessoas que comprem seu barulho em fazer uma educação pública E de qualidade.
Ou talvez porque sou orgulhoso e teimoso mesmo. Se sou com outras coisas, porque seria diferente justamente com meu ofício?
Espero que eu viva para ver menos "tapinhas nas costas" pelo Dia dos Professores (e SÓ no Dia dos Professores) e veja mais valorização da profissão, não só financeiramente, mas também na infraestrutura de nossas escolas, no fim de políticas educacionais que prezam muito mais a quantidade do que a qualidade dos índices da educação, no respeito de toda a sociedade por esse profissional que é tão fundamental  a ela. E que os professores também se deem valor, sem se vitimizar a ponto de dizer que a culpa da situação da educação atualmente não ser nossa culpa e, ao mesmo tempo, não ter vergonha de descer do pedestal e aprender com seus alunos. O dia em que isso tudo pode se concretizar, serei franco com vocês, parece bem distante. Mas a esperança que tenho por dias melhores me diz que eles chegarão. Então, que nós, professores, tenhamos um merecido dia de descanso e amanhã estejamos preparados para dar continuidade a essa luta. Feliz Dia dos Professores!

22 de junho de 2015

"Cadê Seu Bigode?": Um Teste Para Minha Criatividade




Há, aproximadamente, 15 dias atrás, em uma dessas lacunas inesperadas que a rotina dá, me vi em casa, sem muita coisa para fazer. Até que me olhei no espelho e me perguntei "por quê não?" e decidi raspar meu bigode. Não que eu nunca o tenha raspado, mas meu bigode é companhia tão fiel desde a minha pré-adolescência (isso se a pré-adolescência começa aos oito anos, porque me lembro de estar com bigode na campanha do tetra do Brasil em 94) que a sua ausência é sentida, tanto por mim quanto pelas outras pessoas. Tanto é uma ausência considerável que durante os dois ou três dias depois de eu tê-lo raspado as pessoas me faziam uma pergunta: "Flavio, cadê o seu bigode?", como se ele pudesse sair por aí, andando. Ué, gente, raspei, que ideia. É a ÚNICA resposta possível para a pergunta. Mas depois da terceira pessoa que me perguntou isso (e elas me perguntavam EXATAMENTE isso), decidi brincar comigo mesmo: e se eu inventasse uma desculpa diferente para cada vez que me perguntassem "onde" estava meu bigode? Seria um desafio e tanto para a minha criatividade. Pois bem: acho que minha criatividade venceu. Abaixo seguem algumas das respostas que dei:

"Era falso!"
"Bigode? Nunca usei bigode! Não sei de onde você tirou ideia tão cabeluda!"
"Meus deus, roubaram meu bigode! Chamem o Batman!"
"Fui assaltado. O cara falou 'ou o bigode ou a vida'. Dessa vez decidi ficar vivo. Dessa vez!"
"Aquilo? Efeito especial de Hollywood, aquele lance de projetor, não sei como se chama, é 'alguma coisa-grama', eletrocardiograma, quilograma, telegrama, grama de pasto, esses troços que eles usam nos Star Wars da vida. Vocês não entendem nada de efeitos especiais mesmo, hein!"
"Tirou férias. No seu lugar, toda vez que sentirem falta dele, vou colocar um dread no lugar dele com a ajuda do nariz e da boca para matar um pouco a saudade."
"Raspei ele não por vaidade, mas por contenção de gastos. Gasto em torno de r$ 0,03 toda vez que o molho sem necessidade. Aí faz as contas: bebo água, escovo dente, é sopa que fica nele..."
"Fui tomar banho usando o bigode, mas a água fez ele diminuir para o tamanho do bigodinho do Hitler. Imagina o que a galera ia dizer ao ver um negão usando um bigode daqueles, né..."
"Quando vi que tava na moda, raspei. Agora quero uma pochete para completar o pacote anti-hype..."
"Ele fez 18 e foi morar sozinho."
"Ele foi embora por incompatibilidade de personalidades. Mas estamos bem, continuamos amigos."
"Apostei que ficaria mais bonito sem ele. Perdi e tô pagando a aposta desde já."

Entre outras.
Isso sem contar a polêmica, "com ou sem bigode?". Alguns falaram (principalmente os mais jovens), que eu estava "no grau". Imagino que seja coisa boa. Outros falaram que fiquei estranho. Eu mesmo tenho implicância comigo sem bigode, pois pareço uma versão 2.0 do meu pai. Mais moderna, com menos dinheiro e menos filhos (ele me ganha de 3 x 0, fora o baile). Mas pelo menos serviu para mudar o visual um pouco e para colocar a criatividade em dia, tanto que a partir disso, surgiu esse texto. Então, se você gostou desse texto, agradeça a esse exercício sagaz para uma mente criativa. Caso contrário, processe a Gillette por ter provocado um texto tão ruim.

21 de junho de 2015

Um Cara dos Outros Caras no Rádio

Amigos, na última sexta-feira (19/06) representei a banda Outros Caras no programa Painel da Manhã, na Rádio Roquette Pinto (94.1 FM), num papo sobre o lançamento virtual de nosso álbum "Algum Lugar", a cena independente e também algumas curiosidades sobre a banda. O programa também teve a participação da banda Kapitu (que, a propósito, faz um som de primeira, vale a pena escutar), que também lançou seu álbum, "Vermelho" através da internet. Sobrou até tempo para eu falar um pouco do Um Blog de Nada.
Queria agradecer à equipe do Painel da Manhã e especialmente ao meu amigo Fabiano Albergaria, um dos apresentadores do programa e meu amigo de longa data, pelo convite e pelo carinho. À banda Kapitu também, pelo bom papo e ideias que trocamos e também aos meus amigos de banda Felipe e Danilo, que infelizmente não puderam me fazer companhia, mas que confiaram que eu não falaria nenhuma besteira (por pouco, meus amigos, POR POUCO que as besteiras não saem! hahaha) e deixaram eu ir ao programa os representando.

Quem quiser conferir o programa, confere aqui, ó: http://bit.ly/kapitu-outroscaras

O álbum "Algum Lugar", dos Outros Caras: https://soundcloud.com/outroscaras/sets/algum-lugar 

Mais sobre o som da banda Kapitu: https://soundcloud.com/kapituoficial

12 de junho de 2015

Ela Não Foi A Primeira (Mas...)



Ok, eu sei, ela não foi a primeira.
Não que tenham muitas que a precederam, mas para esse povo ansioso em fazer estardalhaço por qualquer coisa, isso pode ser uma informação bombástica. Logo, a polêmica estaria lançada a partir daí.
ESTARIA.
Estaria porque ela pode não ter sido a primeira a me causar suspiros apaixonados, ou a primeira que me beijou ou que me iniciou na arte do sexo. Ela é a primeira que me faz me sentir um homem. Melhor, homem não, no máximo um garoto de doze anos com barba e emprego público. Mas um garoto de doze anos com barba e emprego público bem melhor do que eu era há um tempo atrás, e é isso que importa.
O porquê dessa sensação, em teoria, é simples, mas na prática, é como achar agulha no palheiro. Mas é por isso que ela é especial: pela primeira vez na minha vida sinto que estou numa relação amorosa madura. Sem guerras de ego, sem ciúme doentio,  sem brigas por nada, sem chantagens emocionais, sem tantas coisas ruins que minam as relações amorosas. Claro, não é perfeito. Talvez seja mais culpa minha do que dela o fato de não ser perfeito, pois sou distraído, lento, até mesmo egoísta sem perceber. Mas é ela quem não deixa a peteca cair.
Quantas vezes eu quis só dar um "até logo!" e sumir da vida dela, por achar que eu não estava à altura da mulher que ela é (e algumas "bad trips" de vez em quando tentam ainda me convencer disso). Não só pensei, já fiz! Fora outras trapalhadas que, se ela contabilizasse, ela teria um verdadeiro "Dossiê Flavio", dividido em fascículos. Mas ela, diferentes de muitas outras, nunca se aproveitou dos meus erros para me chantagear. Ela prefere que eu aprenda. E é dessa forma que acho que de um tempo para cá sou um homem melhor.
O amor, meus amigos, vocês sabem, é danado de volátil. Hoje nos amamos, amanhã pode ser quer não. Mas meu amanhã de uns tempos para cá parece que só tem uma certeza: ter ela ao meu lado. Se eu estiver enganado, lembrarei desse período em que estivemos juntos com um carinho imensurável. Mas algo me diz que dessa vez, estou certo, ela será minha última. E se é para valer, que nosso amor dure para sempre. 
Soraya, Te Amo!
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