A tal da
rotina é capaz de suscitar sentimentos opostos: se, por um lado, bocejamos ao
pensar no quanto nosso dia-a-dia pode ser repetitivo (para não dizer chato),
por outro lado nos descabelamos se algo sair dessa rotina. E quando pensamos em
alguma coisa que nos tira dela, pensamos logo em coisas
grandes, tomados por um espírito megalomaníaco, pois pensamos em
engarrafamentos e tumultos infernais, mas esquecemos das coisas que, por mais
que sejam pequenas, atrapalham e até acabam com nosso dia.
Um dia
desses, por exemplo, justamente um dia em que fiquei o dia todo fora de casa,
um chiclete resolveu colar na sola do meu tênis. Por mais inofensivo que o
chiclete fosse, parecia que eu estava calçando em um pé um tênis e no outro um
sapato de salto alto. E, levando em consideração que não tenho nenhuma prática
em andar com salto alto, ainda mais num pé só (habilidade que provavelmente só
um travesti perneta possui), isso foi um incômodo monstruoso. Ao chegar em
casa, ajoelhei, levantei as mãos para o céu e falei “Ó,Senhor, se isso foi um
teste, da próxima vez me peça para construir uma arca, é menos sofrido”. Depois
disso só me restou torcer para que meu fone de ouvido não falhasse no dia
seguinte, pois ter um fone que funciona só de um lado é algo tão ruim que não
se deseja nem ao pior inimigo.
Se pararmos para pensar, na verdade, ficar falando mal da rotina é tão... Rotineiro. Vamos falar mal da novela, do
salário, do nosso time, mas reclamar da rotina cansa. É nessas horas que lembro
do nome daquela peça da Elisa Lucinda, “Pare de falar mal da rotina”. Até
porque, por mais enfadonha que nossa rotina seja, ela é nosso porto seguro.
Pode parecer um pensamento covarde, e é, admito. Mas ser incomodado dessa forma
por um pedacinho de chiclete é chato demais.
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